Pagano em série de câmara

Pianista inaugura programação com recital dedicado a Schumann e Chopin

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2010 | 00h00

Com Chopin e Schumann a tiracolo, o pianista Caio Pagano abre hoje no Cultura Artística Itaim uma nova série de música de câmara dedicada a homenagear os dois compositores - e estabelecer laços entre eles e a música brasileira. Até o fim do ano, serão sete apresentações, reunindo diversos artistas e formações.  

O recital de Pagano, que completa 70 anos em 2010, tem, além de Manquinha, de Villa-Lobos, a Sonata nº 3 de Chopin e as Cenas Infantis de Schumann como eixo principal. No ano em que se lembram os duzentos anos de nascimento dos dois compositores, como Pagano vê o universo musical criado por eles? "Ainda que sejam contemporâneos, eu os vejo como figuras antagônicas, extremamentge diferentes", diz o pianista.        

   

 

 

 

Pianista. Para Pagano, há diferenças fundamentais entre os dois compositores, de quem se lembra do bicentenário em 2010.

 

 

 

 

"Chopin é um autor dedicado à experiência pianística, de onde surge toda sua criação. Schumann tem uma escrita mais pessoal e variada. Chopin é o compositor da epifania pianística, esteve sempre ligado a ela, nunca sofreu mudanças de inspiração, que partia do instrumento e nele chegava. Schumann sofre influências muito marcantes do meio, escreve para piano mas também faz sinfonias, canções."    

Não há, nessa avaliação, qualquer julgamento de valor, garante Pagano. "Chopin busca a forma mais segura e a desenvolve, desde as primeiras peças, atingindo cores cada vez mais ricas e variadas. Sua música cresce, mas os procedimentos são os mesmos, digamos assim, estáveis. Schumann caminha para frente, volta, inova, busca o conflito."  

 

Pagano se diverte imaginando um encontro com os autores. "Eu fico imaginando qual seria a sensação de ver Chopin, ou um outro compositor e pianista como Liszt, tocando suas peças. Seria com certeza definir em palavras o que eles faziam mas com certeza uma experiência rica nasceria da tentativa de entender aquilo que, na arte deles, seria impossível de definir ou narrar. Nós, pobres mortais, podemos apenas sonhar com a possibilidade de, ao nos ouvir interpretando suas obras, os compositores sentirem uma certa epifania."    

 

Pagano se diz contente de voltar a esse repertório. "Eu me lembro certa vez, em Campos do Jordão, de tocar um Brahms. E o (pianista) Fernando Lopes disse: ué, não sabia que você tocava Brahms! Nos anos 80, eu me interessei muito pelo repertório do século 20, Berg, Schoenberg, Bartok, autores brasileiros. E acabei ficando identificado a eles. Não me incomodo, claro, mas o que sempre me guiou na escolha de repertório foi a simpatia pelos autores e suas obras. E, nesse sentido, o grande prazer não está necessariamente em uma época ou estilo mas, sim, na possibilidade de viajar por todo o repertório. Há algumas semanas, fui olhar novamente o concerto do Gilberto Mendes, que toquei há 30 anos e vou tocar agora de novo e fiquei encantado com a beleza da música, com a inteligência da escrita. Se olho para a minha trajetória, a sensação é de muita alegria de ter passado por períodos tão férteis. É uma benção. E espero aproveitá-la muito ainda", diz o pianista.    

Repertório. Os demais recitais da série Schumann, Chopin... e Brasil - Concertos de Câmara Promon 50 Anos apostam mais diretamente na relação entre a obra de Schumann, Chopin e de compositores brasileiros. A curadoria é de Sergio Melardi e a jornalista Gioconda Bordon fará uma introdução antes de cada apresentação, conversando com o público e com os artistas.    

Depois de Pagano, ainda em agosto, apresentam-se, no dia 18, o pianista Pablo Rossi e o violinista Emmanuele Baldini; em setembro, destaque para grupo formado pelo pianista Jean-Louis Steuermann, o violinista Pablo de León, o violoncelista Antonio Lauro del Claro e o trompista Luiz Garcia e para o duo de piano e voz composto por Gilberto Tinetti e Adriana Clis.

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