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Padroeira em dobro

O cronista se enganou: Policena, a achadora, existe. E mais: existem duas

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

05 de novembro de 2019 | 03h00

Como se já não me bastasse a quilométrica fieira de pecados que venho acumulando, a ela acrescentei mais um na semana passada. Sem o cuidado de baixar ao Google, dei de barato que a Policena Mascarenhas, por tanta gente invocada para achar coisa perdida, jamais teria existido. Não tardaram – bem feito! – os puxões de orelha. Ou, antes deles, um toque mais geral, contribuição do Berg: correto seria dizer “Perdidos e achados”, como se usa em Portugal, não “Achados e perdidos”, de vez que em geral se perde antes de achar. 

A prima Beatriz veio me esclarecer que Policena Mascarenhas não apenas existiu como deu nome a uma rua em Sete Lagoas, a cidade mineira onde nasceram nossas mães. E não só ali, acrescentou o Marcílio, pois homenagem idêntica foi prestada a ela em outro município das Gerais, Curvelo, onde, com um sobrenome a mais, há uma rua Policena Barbosa Mascarenhas. A criatura pode ter sido ignorada pelo Vaticano, provoca o Marcílio, mas por aí tem muito santo de carteirinha sem um CEP sequer.

A Heloísa revelou dispor de “um rosário de histórias ouvidas” a comprovar os poderes de achadora da Policena. Ela própria, embora “cética”, já se viu “agraciada” em “situações de extremo aperto”. Conta que o túmulo de Policena Barbosa Mascarenhas, no cemitério das Palmeiras, em Curvelo, é tão visitado que a prefeitura houve por bem incluí-lo como atração suprafunérea em Dia de Finados. Ali, a Policena divide genuflexões e preces com dois outros despachantes junto às Alturas: Siá Reginalda, “a santa mendiga”, e o padre Paulo Rutten, “aquele que andava como se os pés não tocassem o chão”.

Da Isabel, veio uma prece versificada: “Nas profundezas do escondido,/ Policena mostra a luz/ Policena acha/ Policena de Jesus”. Do Cândido, a história de uma Brasília furtada no Rio e recuperada graças à intercessão da Policena, a quem, em nome dele, recorreram suas tias–avós. Do Fredy, a recomendação de acender uma vela embaixo da pia – mas ainda assim não ficou claro: para pedir ou para agradecer, Fredy? 

Agora veja como são as coisas: você vai em busca de uma coisa e acha outra, tal como se passou com aquele português que saiu de Lisboa para comprar noz-moscada nas Índias e no caminho achou um Brasil. Pois bem, fui atrás de uma Policena – e me apareceram duas. 

A respeito de uma delas, a mais conhecida, merecedora de nome de rua em dois municípios, quem me esclareceu foi o Jacyntho. Nascida em 1811 e falecida em 1900, seu nome de pia (sem trocadilho) era Policena Moreira da Silva (Moreira ou Gonçalves, Jacyntho? Acabo de topar com essa variante onomástica). Casada em 1824 com o major Antônio Gonçalves da Silva Mascarenhas, teve 13 crias – umas das quais, o Bernardo, veio a notabilizar-se como empreendedor a quem Minas deve, entre outras iniciativas, uma longeva indústria têxtil. 

E há também, não menos achadora, uma Policena de sobrenome Barbosa, a quem Pedro Nava dedica um gordo parágrafo em Galo das Trevas, o volume 5 de suas memórias. Era empregada de família em Belo Horizonte, e “dentro de casa só ela sabia de tudo”. Sumia alguma coisa? Tarefa para a Policena, que chegou a desabafar: não sei como vocês vão se arranjar quando eu morrer. Cuidou disso antes de bater as botinas: “Me chamem mesmo morta”, prometeu, “e faço achar o perdido”. A fama de seus poderes saltou o muro e ganhou a cidade, o Estado, arrebanhando usuários vitalícios, entre eles Pedro Nava: “Na desordem dos meus papéis e minhas fichas”, revelou o grande memorialista, o que desaparecia era restituído “pela santinha Policena, que nunca deixo de invocar”. A paga: três ave-marias. 

Você perde uma coisa e esbarra na dúvida: a qual das prodigiosas Policenas recorrer – à mãe de industrial ou à serva de família endinheirada? Entre mineiros, recomenda-se apelar a quantas haja.

Tratos às bolas. Agora que o estabelecimento mudou de nome, dá para contar a história, sem o risco de causar problema a seu proprietário. Novo proprietário, aliás, pois o bem-sucedido negócio mudou de mãos mais de uma vez antes exibir, de uns dias para cá, uma nova denominação, a qual, me desculpe, caberá a você descobrir, na primeira ou próxima visita.

A antiga me encheu de pasmo quando por lá passei pela primeira vez, faz alguns anos, e li na fachada: Gattamelata. 

O “melata” até me pareceu fazer sentido, em se tratando de sorveteria. Mas o “Gatta”, vamos convir, justaposta ao “melata”, poderia conter, aos olhos de gente maliciosa, uma conotação não só felina como fescenina. Lasciva, sim. Gata melada. Lúbrica. Lubrificada! 

Tomado de curiosidade, fui perguntar ao meu amigo, enteado do proprietário, e ele, talvez por não querer comprar encrenca de família, me remeteu ao padrasto, um italiano simpático, com o qual papeei enquanto dava cabo de uma casquinha de sorvete de limão siciliano.Gattamelata, esclareceu ele, era o apelido de Erasmo da Narni, líder de massas que viveu entre os anos de 1370 e 1443, tendo reinado na província de Pádua, da qual foi por um tempo ditador. Destacado o bastante, soube eu depois, para merecer estátua equestre assinada pelo grande Donatello.

Tudo bem, disse eu, mas por que botar numa gelateria do bairro paulistano das Perdizes o nome de um condottiero nascido em terra distante e há quase seis séculos? O italiano piscou um olho e, com um gesto de queixo, remeteu o curioso ao logotipo da casa, sobre nossas cabeças: um corneto coroado por três bolas de sorvete. Como eu não desse mostras de haver matado a charada, tratou de ser explícito:

– Era assim o Gattamelata.

– Assim como?

– Era que nem esse gelato aí – concedeu ele, e pôs em miúdos, se é que no caso assim se pode dizer: – O Gattamelata era exemplo de algo raro, a triorquidia. 

Pausa. 

– Tinha três bolas.

(Boquiaberto, por um momento nem assim dei conta de seguir lambendo a minha casquinha – biorquídea – de limão siciliano.) 

Desde então a mão coçou para contar a história, e se até agora não o tinha feito foi por temer que o escancaramento da anatomia de Erasmo da Narni, o Triorquídeo, pudesse comprometer o sucesso da gelateria. Mas – me ocorre agora – será que não iria provocar movimento inverso, congestionando ainda mais o concorrido balcão da Gattamelata?

A casa mudou de dono e de nome, mas o sorvete continua impecável. Recomendo. A casquinha triorquídea está custando R$ 16 reais.

 

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