Paço das Artes exibe retrospectiva de Fred Forest

Fazer da filosofia um ato. É assim que o argelino Fred Forest resume seu trabalho, apresentado em retrospectiva no Paço das Artes, e constitui uma das ações pioneiras no uso da tecnologia como forma de arte. Usando diferentes mídias em diferentes abordagens, ele vem promovendo desde a década de 60 curtos-circuitos entre discurso artístico e contexto social que adquirem vida própria e promovem reflexões sobre temas como o poder da mídia, a censura, a massificação dos discursos e, um de seus alvos preferidos, as distorções do mercado da arte.Como não poderia deixar de ser, a mostra dá ênfase a uma de suas ações mais retumbantes, realizada em São Paulo durante a Bienal de 1973 e que acabou revelando-se um manifesto contra o governo militar. Criando eventos a partir do contexto em que será visto, Forest decidiu apresentar na Bienal uma performance que consistia em levar para o centro da cidade pessoas carregando plaquetas em branco. Grande contraste com os anúncios de "compra-se ouro" que o inspiraram e crítica nem tão sutil à mão de ferro do Estado ditatorial. O evento cresceu como bola de neve, atraiu dezenas de pessoas e culminou com a detenção do artista."Crio um evento de comunicação", diz o artista. A obra em si deixa de ser só o ato. A ela se agregam as colaborações alheias, notícias de jornal, ações da polícia... Não à toa o artista, cujo trabalho tem grande sintonia com a linha que vem sendo definida para a 27.ª Bienal, mas que ainda não foi convidado para o evento, defende que uma verdadeira bienal deve ser feita em plena Avenida Paulista, no coração pulsante da cidade.Infelizmente, essa carga crítica da obra de Forest - por sua natureza imaterial e coletiva - é difícil de expor, o que explica o excesso de recortes de jornal e documentos de época na mostra do Paço. Não à toa, o melhor da mostra são os vídeos, ou porque parecem reconstituir melhor a ação do que as reproduções de jornal ou porque representam nos nossos dias o ponto nevrálgico do embate entre sociedade e poder de massas.Arte hoje para ele é um sistema invisível, que se sustenta a partir de interfaces tecnológicas. "Da mesma maneira que um pintor trabalha com um sistema de formas e cores num quadro, eu lido com a imaterialidade da obra. Arte são imagens mentais e o suporte é o próprio cérebro humano", resume. Mas para ele, "mais do que ficar fechado em galerias e bienais, o papel do artista é criticar. Talvez até mais hoje do que ontem". Claudia Jaguaribe e Retrospectiva de Fred Forest. Paço das Artes. Avenida da Univer-sidade 1, Cidade Universitária, 3814-4832. 3.ª a 6.ª, 11h30 às 19 h (sáb. e dom., 12h30 às 17h30). Até 16/7

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