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Paciência zero

Qual mendigo, o cronista pede uma moedinha - a mesma que também você anda procurando

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2016 | 05h00

Procura-se quem dê bandeira.

Dê, troque, até mesmo venda bandeira.

Convém ir logo explicando: quem procura é um cronista que, como se nada de mais sério tivesse para fazer, se acha empenhado na busca de certa moeda de 1 real – mais especificamente, uma das que foram cunhadas no ano de 2012 e em cuja efígie uma tremulante bandeira saúda, com 4 anos de antecedência, a Olimpíada do Rio de Janeiro.

Se você liga para dinheiro o bastante para examinar os dois lados da moeda, por certo saberá da existência daquelas 16, também de 1 real, alusivas aos jogos olímpicos, em circulação faz uns meses. Pois bem, senhoras e senhores, essas o cronista arrebanhou sem grande esforço, uma por uma, para isso lhe bastando estar duplamente atento ao troco que, diria o ocupante do Palácio do Planalto, se lhe deram por aí no dia a dia. Falta apenas a precursora, a da bandeira, que imagino escurecida por incessante manuseio nos últimos 4 anos.

Que isso, ao contrário da moeda, fique bem claro, pois o referido escriba, longe de ser um caça-níqueis, é apenas um numismata passivo, conforme, aliás, já se rotulou numa crônica assim intitulada. Ou seja, alguém que se limita a reter uma ou outra peça que o acaso fez chegar a suas mãos. Ninguém o haverá de ver, portanto, nas feirinhas de domingo, a fuçar em tabuleiros de velhas moedas que, fora de circulação, hoje remuneram apenas o coração expectante dos numismatas, esses sim, ativos.

Nada contra os colecionadores de moedas, medalhas ou qualquer outra bugiganga. Se não sou um deles, é por faltar paciência a quem, menino, jamais chegou a completar um álbum de figurinhas. Ou perseverança para acompanhar uma novela de TV, tortuosidade cênica que até me disporia a encarar, desde que de gole só, sem o coito interrompido que é um fecho de capítulo, desmancha-prazeres justo quando a história está no ponto mais interessante.

Em muitas outras situações, me acomete a paciência zero. À beira de uma panela fondue, por exemplo. Se dependesse de mim, começaria despejando toda a carne crua na gordura fervente, na qual os pedacinhos poderiam ser pescados um atrás do outro, sem os intervalos que fazem do fondue uma tortura para quem é um velocista do garfo.

Na minha atormentada puberdade, disposto ainda a ser piedoso, amarguei a frustração de jamais completar as chamadas 9 Primeiras Sextas-feiras, dia da semana em que deveria comungar, conforme receitara o confessor para purgar os meus pecados (a bem dizer, sempre o mesmo, repetido à exaustão). Mais de uma vez, cravei a sétima, a oitava, mas alguma coisa, quase sempre o tal pecado, me impedia de arrematar a série das 9 Primeiras Sextas-feiras. Cheguei a cogitar a alternativa de concentrar num só dia as 9 comunhões e, se não me lancei nessa maratona eucarística, foi pelo temor de uma indigestão espiritual.

Até o presente momento, fui colecionador de um solitário item, conforme, aliás, registrou dia desses o colega Ancelmo Gois na sua coluna em O Globo, ao se referir a meu acervo de lugares-comuns e frases feitas – cerca de 6 mil antipérolas verbais coletadas ao longo de quase meio século e, a certa altura, acondicionadas nas páginas de O Pai dos Burros. Trata-se, porém, de um livro involuntário, pois nasceu e engordou sem premeditação editorial, ao sabor de anotações vadias. Quando me dei conta, tinha um burrico pronto, faltando apenas montar.

Nada a ver, portanto, com a determinação e pertinácia dos colecionadores genuínos – o artista plástico Claudio Cretti, por exemplo, refinado gari de ornamentais garrafas, algumas delas por ele mesmo previamente esvaziadas. Ou certo político graúdo que não gostaria de ver seu nome aqui, o qual, me ocorre agora, talvez pudesse associar-se ao citado Claudio, uma vez que vive catando, além de votos, tampinhas de garrafa. Ou, ainda, a museóloga Ana Maria, que só deixou de colecionar porquinhos quando amigos mal sintonizados com o espírito da coisa começaram a presenteá-la com alentadas representações de suínos. Curiosamente, passou a arrebanhar elefantinhos.

A minha coleção de colecionadores inclui o falecido bibliófilo Plínio Doyle, que acumulava corujas, quase 2 mil, pousadas em cada canto de seu famoso apartamento-biblioteca em Ipanema. “Por que corujas?”, perguntei, e ele: “Sei lá...” Devo citar também o Joaquim, ajuntador compulsivo de figurinhas de dinossauros, monstrinhos da Coca-Cola e cartinhas de Pokémons da Elma Chips, entre outros diminutivos, além de cartões telefônicos já incapazes de comunicação.

Longe de mim querer chegar a tanto, eu que, na terceira coruja, no segundo porquinho e no primeiro dinossauro, já teria desistido. Não almejo mais do que a moeda da bandeira, que você talvez tenha aí no bolso ou gaveta, sem suspeitar do tostão de alegria, desproporcional a seu valor de face, que ela seria capaz de trazer a um numismata passivo, o qual, de quebra, encerrados seus dias, teria com que remunerar os serviços de Caronte, o barqueiro do Inferno.

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