Ozu e as mudanças da sociedade japonesa

Versátil lança filmes do diretor e abre celebração no País pelos seus 110 anos

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2013 | 02h22

Completam-se em dezembro 110 anos de nascimento e 50 anos da morte de Yasujiro Ozu. O mais japonês dos diretores nasceu e morreu no mesmo dia - 5 de dezembro, tendo vivido entre 1903 e 63. Iniciou-se no cinema no final dos anos 1920 e foi muito ativo ainda no silencioso, adquirindo projeção na década seguinte, mas a carreira foi interrompida em 1937 e reiniciada somente após o fim da 2ª Guerra, quase dez anos mais tarde. O Ozu que retoma a direção é um mestre consumado, mas dos grandes japoneses - Kenji Mizoguchi, Akira Kurosawa - ele foi o que mais tardiamente recebeu consagração no Ocidente. Sua obra, durante muito tempo, foi rotulada como muito 'oriental' e, por isso mesmo, não era considerada para exportação.

Há um revival de Ozu nesta data redonda de comemoração. O Festival de Berlim abriu os trabalhos em fevereiro, exibindo a versão restaurada de Tokyo Story/Era Uma Vez em Tóquio e o remake assinado por Yoji Yamada, Tokyo Family. Ambos os filmes foram comprados por uma nova distribuidora brasileira, a Esfera, de Marcelo Mendes e Ana Luiza Beraba, que vai lançá-los na Mostra de São Paulo, aproveitando que o evento exibirá os três clássicos de Ozu restaurados pela Shichiku e exibidos nos três maiores festivais - Berlim, Cannes e Veneza. Em maio, Cannes Cassics apresentou O Gosto do Saquê. E, no começo do mês, foi a vez de Veneza resgatar Flor de Equinócio. Em dezembro, o MIS, Museu da Imagem e do Som, vai realizar uma retrospectiva do grande diretor, em parceria com a Fundação Japão. E precedendo tudo isso, a Versátil lança a caixa O Cinema de Ozu, com três discos, cinco filmes, todos entre os melhores que ele fez, e o documentário Conversando com Ozu.

As conversas com Ozu são conversas sobre Ozu. Entre os que prestam depoimentos estão cineastas tão diversos quanto Wim Wenders, Aki Kaurismaski, Hou Hsiao Hsien, Claire Denis, Stanley Kwan e a falecida Lindsay Anderson, todos unidos no culto a um dos autores mais exigentes que o cinema conheceu. Todos destacam a economia de Ozu, o seu minimalismo. O próprio Ozu tinha horror a filmes muito narrativos, com excesso de tramas e diálogos. Dizia que o aborreciam. Muito drama também o enfadava. Preferia a rotina e o silêncio e gostava de inscrever seus filmes na tradição de um gênero, o shimun-geki, drama ou comédia popular e intimista, que remonta aos anos 1920 e a seu mestre Yasujiro Shimaju. Esse pioneiro hoje esquecido foi também o mestre de outro intimista japonês, Mikio Naruse. Mas, se Naruse foi caracteristicamente um cineasta da mulher, Ozu o foi da família, na maioria das vezes deslocando o eixo para a figura paterna - e o pai de seus filmes foi o ator-fetiche Chisu Ryu.

Naruse flertava com o neorrealismo, o Ozu da segunda fase - após a interrupção da guerra, quando foi soldado - consolidou um estilo particular. Câmera baixa, levemente em contraplongé, relatos desprovidos de espetaculosidade, tudo muito simples e depurado. Os críticos dizem que sua especial posição de câmera sugere o ângulo de visão de um observador sentado na tradicional esteira de tatame. Essa simplicidade, na verdade, era resultado de uma extrema sofisticação. Os relatos familiares de Ozu são repletos de sabedoria oriental, levemente oníricos. Traduzem um humanismo não místico, preocupado mais com o homem do que com a existência do divino. Isso explica porque, ao morrer, Ozu deixou instruções para que em sua lápide houvesse apenas uma inscrição - o ideograma do chinês antigo correspondente a Mu, que significa 'vazio'.

Crônica social. Os filmes que integram a caixa da Versátil compõem um arco temporal que vai de 1936 a 57, 21 anos depois. O longa mais antigo da série também foi o penúltimo que Ozu fez antes de se juntar ao Exército - Filho Único. Vieram depois, pela ordem - entre os que estão na caixa - Era Uma Vez Um Pai, de 1942; Também Fomos Felizes, de 1951; Era Uma Vez em Tóquio, de 1953; e Crepúsculo em Tóquio. Depois desse, ele ainda fez mais seis filmes, incluindo Bom-Dia, Tarde de Outono e o último, com seu título revelador, de 1962, A Rotina Tem seu Encanto. Sempre centrado no universo familiar, o cinema de Ozu compõe uma espécie de crônica das transformações ocorridas não apenas com a família tradicional japonesa, mas com a sociedade como um todo.

Filho Único, primeiro filme sonoro de Ozu, usa a história de mãe solteira que enfrenta dificuldades para criar o filho do título como ferramenta para uma abordagem maior - a proletarização da pequena burguesia do Japão, consumida pela economia de guerra que visava fortalecer o Exército do imperador. É sempre assim. Ozu parte de pequenas tramas, variações sobre um tema único - as relações entre pais e filhos - para tecer sempre uma reflexão mais ampla. Vale destacar que no Japão da segunda metade dos anos 1930 a sociedade inteira entrou num processo de militarização que incluiu a invasão da Manchúria chinesa e o ataque à base norte-americana de Pearl Harbour em 1942, incrementando a 2ª Guerra no fronte do Pacífico.

Era Uma Vez Um Pai é sobre um viúvo que tenta manter a ligação com o filho ao enviá-lo a Tóquio, para estudar. Também Somos Felizes é sobre uma filha que não aceita o casamento arranjado pelo pai. Era Uma Vez em Tóquio, também conhecido como Viagem a Tóquio, é sobre casal do interior que visita os filhos na capital. Crepúsculo em Tóquio é sobre duas filhas que buscam abrigo junto pai, uma grávida (e solteira), a outra para fugir ao marido violento. Em todos esses filmes - em todo o seu cinema -, Ozu aborda o que talvez seja seu grande tema, o conformismo (num sentido não pejorativo). As pessoas têm sempre expectativas que a vida não satisfaz. Em muitos outros filmes - de outros autores -, elas se rebelariam. Em Ozu, sofrem quase sempre de forma silenciosa. É uma arte (nunca demasiado) oriental, fundada em conceitos como Ma (o interstício) e o Mu (o vazio). Um cinema de pequenos gestos, em que nada é tudo e Chisu Ryu nunca é menos que genial - o ator mais econômico e sutil do cinema? - em sua contenção.

O CINEMA

DE OZU

Cinco filmes: 'Era uma Vez em Tóquio'/ 'Também

Fomos Felizes'/ 'Era uma Vez um Pai'/ 'Crepúsculo em Tóquio'/ 'Filho Único'Versátil.

R$ 69 (3 DVDs)

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