Ozon volta às origens, à juventude e aos desejos

Diretor afirma ter trabalhado com sensações extremas em Jeune et Jolie

LUIZ CARLOS MERTEN, ENVIADO ESPECIAL / CANNES, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2013 | 02h10

François Ozon minimiza o aspecto Bela Tarde de seu novo filme, que conta a história de uma garota de 17 anos que leva vida dupla, prostituindo-se com clientes que a recrutam pela internet. Jeune et Jolie, Jovem e Sexy, é um dos bons filmes que integram a competição do 66.º Festival de Cannes. Na sexta-feira, o diretor conversou com o repórter do Estado, no espaço Mouton Cadet do Palais. A vista era espetacular, com o mar azul e todas aquelas embarcações na baía de Cannes. Jeune et Jolie nasceu do desejo de Ozon de voltar a suas origens, filmando a juventude. E, sim, ele tem consciência de estar fazendo nascer uma estrela, a deslumbrante Marine Vacth.

Como surgiu a história de Jeune et Jolie?

É difícil de explicar quando se trabalha com roteiros originais, mas depois de Dentro de Casa, em que tive grande prazer dirigindo Ernest Umbauer e Bastien Ughetto, queria voltar aos temas da juventude de meus primeiros filmes. A partir de Sous le Sable comecei a filmar gente mais velha, inclusive mais velha do que eu. Também sonhava há tempos com um filme sobre a prostituição e, como a juventude não foi uma época particularmente feliz para mim, não queria filmar garotos. Uma jovem me permitiria certo distanciamento. A soma de tudo isso produziu Jeune et Jolie.

Por que a sua juventude não foi particularmente feliz?

A sua foi? A juventude é sempre uma época difícil, na qual você tem de conviver com as mudanças em seu corpo, com a descoberta do desejo. O cinema aborda esse período do ponto de vista emocional, eu queria a coisa física, hormonal.

Mas isso não é exatamente uma novidade em sua carreira, não?

Não é, mas dessa vez eu queria saber até onde conseguiria ir. O dogma desse filme, se existe um, é a ausência de psicologia. Isso cria lacunas que o espectador tem de preencher. Percebo que cada vez me preocupo menos em explicar as coisas. Já era assim em Dentro de Casa. Talvez tenha demorado, mas hoje me dou conta de que, como diretor, é mais importante fazer perguntas do que fornecer respostas.

Você não busca justificativas para o comportamento de Isabelle. O fato de ela se prostituir fica meio sem resposta, mas o poema de Rimbaud fornece uma pista. Por que aquele poema?

Você já conhecia Ninguém É Sério aos 17 Anos? O poema foi mais uma referência para mim, mas fornece uma chave. Isabelle entra na pele de Léa, seu codinome como prostituta, de uma forma muito séria, e isso contradiz Rimbaud. Para mim, o tema do filme é a descoberta e a experimentação do corpo. É o que a mãe diz para Isabelle. Embora reprove a filha, se tivesse coragem, ela também, teria se prostituído. Não é pelo dinheiro, não é pela excitação. Meu papel como diretor, neste filme, foi esvaziar Marine (Vacth) de toda emoção.

Em muitos momentos, ela está presente, mas parece ausente. Como conseguiu isso?

Essa era a intenção. O corpo e, ao mesmo tempo, sua ausência. O cinema, mesmo quando não se deseja ser realista, é muito concreto. Você dá a ver, como diretor. Você vê, como espectador. Trabalho aqui com sensações extremas. Marine cria uma esfinge.

Você vem de um extraordinário sucesso de público com o filme Dentro de Casa. Acha que vai repetir a dose com Jeune et Jolie?

Gostaria que isso ocorresse, mas não é pelo dinheiro. Não sou um diretor intelectual, um experimentador de linguagens. Sou um contador de histórias. Dentro de Casa é sobre contar histórias, embora muita gente diga que é sobre como subverter histórias. O que me interessa é iluminar a complexidade humana. Não importa se você é gay ou straight, o sexo é instinto, uma atividade natural que a cultura reprime ou torna difícil. O amor e o sexo são temas inesgotáveis. Você poderia fazer filmes só sobre isso, e sempre teria assunto.

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