Ozon e sua grávida que recusa a maternidade

François Ozon saiu do armário antes de começar a fazer cinema, em 1997. O homossexualismo se faz presente em especial em Gotas d"Água em Pedras Escaldantes, que adaptou da peça de Rainer Werner Fassbinder. Na maioria das vezes, é um cineasta do feminino, que investiga a sensibilidade da mulher e os dilemas do casal moderno para tratar do tema que mais o atrai. Ozon não acredita em amores felizes. E é obcecado pela morte ? em Sob a Areia, Oito Mulheres e O Tempo Que Resta. O Refúgio, seu novo longa, uma das atrações do Festival Varilux de Cinema Francês, é um pouco uma súmula de suas preocupações autorais.

, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2010 | 00h00

Em Paris, em janeiro, Ozon encontrou-se com o repórter do Estado. Seu longa anterior, Ricky, sobre um bebê que nasce com asas, permanece inédito no País. Ozon tem há tempos o projeto de um filme sobre a morte de uma criança, que admite não ter coragem de encarar. O menino com asas já era um pouco um ensaio nessa direção. O Refúgio segue em outra. Logo no começo, um casal se droga numa casa. Ele morre, ela sobrevive. Está grávida e resolve manter o bebê, menos pelo desejo de ser mãe do que pelo de conservar um pedaço do homem amado. O morto tinha um irmão gay, que vai compartilhar agora, com a heroína, o refúgio do título.

O diretor conta a origem de O Refúgio. "Um dia uma amiga atriz me telefonou para contar que estava grávida. Conversamos e ela estava tão entusiasmada com as mudanças em seu corpo. Aquilo mexeu comigo. Sempre tive vontade de fazer um filme com uma grávida, um pouco porque a gravidez na tela me incomoda. Todas aquelas barrigas são obviamente falsas. Escrevi rapidamente uma história, que logo virou roteiro. Enviei-o à minha amiga. Ela ficou tentada, mas descartou de cara porque o projeto ia no sentido contrário do que estava vivenciando ? no meu roteiro, a garota não quer ser mãe. Fiquei sem a minha atriz, mas, a esta altura, já estava possuído pela ideia de O Refúgio. Passei a procurar outra atriz que estivesse grávida e cheguei a Isabelle."

Isabelle Carré pode ser pouco conhecida no Brasil, mas é famosa na França. Ela também não ficou nem um pouco entusiasmada. "Embora minha gravidez ainda estivesse no começo, parei com tudo. Queria justamente não fazer nada. Comer, dormir, acompanhar o crescimento da barriga." Só que o comportamento da personagem intrigava Isabelle Carré, essa mulher que não tem o instinto da maternidade e, no final, faz uma escolha. Ela impôs algumas condições ? como filmar em outra região, que não a escolhida pelo diretor, para ficar mais próxima de sua família ? e terminou aceitando.

Ozon admite que, embora o clima no set fosse o melhor possível, o ritmo da atriz ? Isabelle tinha muito sono, quando começou a rodagem ? obrigou-o a trabalhar num cronograma muito mais lento do que o previsto. Por outro lado, o tempo conspirava. Ele conta que, dada a urgência do projeto, seu roteiro não estava 100% escrito. "Muita coisa ficou para ser desenvolvida no set, num trabalho conjunto com a atriz. O próprio desfecho não estava muito claro na minha cabeça. Tudo isso foi muito estimulante. Gosto de fazer cinema assim. Trabalho com roteiros muito elaborados, mas também é gostoso ir construindo um filme seguindo as circunstâncias."

Num certo sentido, Ozon admite que a escolha que a personagem faz aponta para uma militância gay ou um novo conceito de família que não foi intencional, na deflagração de O Refúgio. Mas foi como o filme saiu, e ele gostou muito da experiência. "Nunca fiz nada tão arriscado. O médico de Isabelle poderia nos fazer parar, a qualquer momento." Para o diretor, foi fascinante seguir essa grávida, ver como ela se movimenta, como reage aos estímulos. O ator que faz Paul, o irmão gay, é o cantor e compositor Louis Ronan Choisy, estreando no cinema. Era um risco a mais, mas Ozon conta que, após assistir a um show do artista, achou-o bonito e decidiu que gostaria de filmar com ele. O Refúgio foi o filme certo para isso. / L.C.M.

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