Duke Wellinton/Divulgação
Duke Wellinton/Divulgação

Oxigênio se destaca no Fringe

Novo espetáculo da Cia. Brasileira de Teatro surpreende na programação da mostra paralela

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2011 | 00h00

CURITIBA - É natural. Todos os anos o Fringe - a mostra paralela do Festival de Curitiba- elenca um amontoado de bobagens. Difícil se achar entre tantas peças justapostas, sem algo que lhes dê um sentido ou direção. Mas, de tempos em tempos, é precisamente aí, nesse caos aparente, que surge uma dessas revelações capazes de justificar o festival inteiro.

Nesta edição, temos ainda quase uma semana inteira de programação pela frente. O que tornaria qualquer balanço um tanto prematuro. É pouco provável, contudo, que algo surpreenda mais do que Oxigênio, o novo espetáculo da Cia. Brasileira de Teatro. Verdade que o grupo curitibano do diretor Marcio Abreu já tem um nome e um lugar bem sedimentado na cena nacional. Em 2010, eles conquistaram uma aura de quase unanimidade com Vida. Mas isso não torna menor a surpresa que a nova criação oferece. Ao contrário.

Primeiro, porque Oxigênio distingue-se bastante de Vida. Depois, porque guarda com esse trabalho pregresso um forte laço de continuidade, como se fosse quase o desdobrar de uma mesma pesquisa. Soa contraditório? Pode ser, mas tem lá a sua lógica. A recusa à representação, a maneira peculiar com que os intérpretes se colocam em cena, a linguagem que recende mais à poesia do que a uma prosa lógica e coerente. Tudo isso está de volta. Mas de um jeito diferente. Depois de empenhar-se na criação de uma dramaturgia própria, o coletivo debruça-se agora sobre um texto acabado, obra do siberiano Ivan Viripaev.

Já descoberto na Europa, Viripaev é hoje um dos nomes de maior destaque da dramaturgia russa. Em seu drama de tintas contemporâneas, mobiliza uma fábula aparentemente simples. No interior da Rússia existe um homem, Sacha. Um dia, ele se apaixona por uma moça que conhece em Moscou e, por acaso, também se chama Sacha. Atordoado com o que sente, volta a sua cidade natal e mata, com golpes de pá, sua mulher. Com fortes ecos de Crime e Castigo e ao som de rock pesado, o enredo parece surgir só como pretexto para que outra coisa se dê no palco.

Ficam evidentes, nesse ponto, as semelhanças entre a escritura de Viripaev e o lugar que a companhia dispõe-se a ocupar. Os atores Rodrigo Bolzan e Patrícia Kamis não representam personagens. Existe uma história que é por eles contada e não encenada. Surgem como intérpretes desafiados a instaurar, constantemente, sua presença diante de quem os assiste. "A tendência dos atores é aprender a fazer e vir com domínio sobre a estrutura da peça. E isso, tanto em Vida como aqui, é uma armadilha. Tem uma instabilidade que é necessária. Para que algo se dê aqui e agora, nessa relação com quem vê", comenta Abreu.

O texto tem a aparência de uma proposição musical. Com indicações de pequenos atos ou capítulos, que são chamados de composições. Há até trechos que se repetem como refrões. "A repetição é a maneira com a qual o público avança na história", diz Abreu. A partir de determinado momento, o romance entre Sacha e Sacha acaba. Mas a apresentação continua. Como um embate entre as pessoas que estão no palco. "Há, necessariamente, uma implicação política de quem fala", pontua o diretor.

Marcio Abreu gosta de dizer que Oxigênio é uma peça de geração, daqueles que nasceram nos anos 1970. Questões como terrorismo, pedofilia e fanatismo religioso despontam em meio a um turbilhão verbal. Não existe um lado certo para se estar. Relativiza-se qualquer moral. Todos os pontos de vista, dos mais ingênuos aos mais controversos, são convocados.

Aparentemente, a intenção é que se extraia algum sentido, ainda que pessoal e intransferível, de todo esse excesso. Retorna sempre a primeiro plano a questão: O que é essencial para cada um? O que é oxigênio para você? Manter-se em um estado constante de inquietação, eis o convite que nos faz o novo espetáculo da Cia. Brasileira de Teatro.

Cia. Brasileira de Teatro

Criada em Curitiba em 2000, sob a direção de Marcio Abreu, notabilizou-se no eixo Rio-São Paulo com o espetáculo Volta ao Dia, adaptação da obra de Cortázar. Seu último trabalho, Vida, conquistou vários prêmios e firmou o lugar do grupo na cena nacional.

PROGRAMAÇÃO

Além das apresentações do espetáculo Oxigênio, a Companhia Brasileira de Teatro preparou uma programação com leituras e encontros, que acontece durante todo o período do Festival de Curitiba. "É importante que o festival invista também em atividades de formação", comenta o diretor Marcio Abreu.

Na sede da companhia, estão previstos encontros com artistas e leituras de textos. Amanhã, a paulistana Cia. Club Noir abre o ciclo com Fatias de Guerra. O texto de Andrew Knoll, autor curitibano, será lido por Juliana Galdino, sob direção de Roberto Alvim. Na quinta, é a vez do Espanca!, de Belo Horizonte. Dirigido por Grace Passô (foto). o grupo apresenta sua versão para El Liquído Táctil, obra do argentino Daniel Veronese.

Já a Companhia Brasileira de Teatro aproveita a ocasião para mostrar uma prévia do que deve ser seu próximo trabalho. Na sexta, eles leem Isso Te Interessa?, Inédita no Brasil, a peça da francesa Noëlle Renaude deve ser montada pelo grupo ainda neste ano. Na programação de oficinas, os convidados são dois franceses: Thomas Quillardet, ator da companhia Jackart/Mugiscué de Paris, e Pierre Pradinas, diretor do Centro Dramático Nacional de Limonges.

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