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Ouvir com fome

Sou tentado a achar que prosperidade torna o ouvido muito seletivo

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2020 | 03h00

O francês La Fontaine (1621-1695) recriou muitas das fábulas de Esopo (620 a.C. - 564 a.C.). A ideia era humanizar animais e, nos diálogos dos bichos, criar uma sabedoria moral para os humanos. A fábula 18 do livro 9 trata do milhafre (ave de rapina parecida com o falcão) e do rouxinol. O pequeno pássaro foi agarrado pelo predador. Na tentativa desesperada de sobreviver, a ave suplica ao algoz que a liberte, pois poderia cantar ou falar do famoso rei Tereus da mitologia. O grande pássaro sorri e diz que um “estômago com fome não possui orelhas” (ventre affamé n’a point d’oreilles). Moral? Diante das necessidades básicas, escasseia a chance de sensibilidade ou de disposição para ouvir músicas... ou argumentos. A fome expulsa o diálogo e coloca o imperativo imediato no palco. Não me fale de Bach se estou desesperado. Não cante uma ária ou dialogue comigo se meu corpo gritar por comida! Um ser faminto só entende da busca do alimento. Essa é a lição dura e direta de La Fontaine.

Tendemos a dar razão a ditados populares e moral das narrativas. Parecem sábios e eternos. “Devagar se vai ao longe”; “de grão em grão, a galinha enche o papo”, etc. Vamos passar por cima da tradição e duvidar. Toda moral indica a persistência e o método, ou a vida sem o verniz das utopias. Mas... será?

No caso da fábula, temos o contrário. A fome e o desespero multiplicam orelhas e tornam o angustiado excessivamente atento ao burburinho do mundo. Gente com medo escuta discursos variados, teorias conspiratórias e promessas vazias de redenção de um messias qualquer. A felicidade, esta sim, costuma produzir ouvidos de mercador. Quem, apaixonado, pensa nos desafios do mercado de câmbio? Quem analisa a corrupção se estiver perfeitamente satisfeito? A fome aguça as orelhas, imensamente. Todo barulho é uma solução. Cada murmúrio vira plano salvífico. Qualquer idiota se torna estadista se eu não tiver algo a perder. Países em crise, historicamente, apelaram mais a soluções radicais do que países estáveis. A votação para Hitler ocorreu em meio a fome e desemprego, com o orgulho nacional ferido. O Führer foi ouvido por causa da fome e da crise. Talvez, fosse apenas mais um palhaço de taverna em época próspera. O apoio de muitos chineses às tropas de Mao na China era a memória da violência japonesa na guerra, da fome nos campos e da corrupção dos nacionalistas. A China de 2000, em plena prosperidade, forneceria a mesma atenção dada ao líder comunista de 1949? Não existe “se” em história. Sou tentado a achar que prosperidade torna o ouvido muito seletivo; crise eleva a audição ao posto de órgão mais sensível.

Na lógica histórica, deveria ser sempre o contrário. Um império próspero e pujante como o romano do século 1.º, tolera bem personagens como Calígula ou um ano difícil como 68/69 d.C (com quatro imperadores). A falta de grandes estadistas no colapso da águia romana foi muito mais sentida. Carro bom em estrada ótima: a qualidade do motorista é menos significativa do que em terreno acidentado sob chuva.

O adolescente carente vê, no sorriso fugidio de cada moça que passa, a promessa de redenção. Os governos republicanos recentes foram esvaziando o sentido racional da política como gestão do bem comum. Em 1985, uma parte expressiva da população tinha esgotado a crença em soluções de arbítrio. Inflação alta, incompetência administrativa, desemprego e casos de corrupção tinham levado ao apoio enorme à campanha das “Diretas Já”. Raiou a Nova República. Cantamos Coração de Estudante. Acabou assumindo Sarney, líder da ditadura. A inflação piorou. O desemprego disparou. A corrupção permaneceu. Era preciso restaurar o voto popular! Ocorreu o desejo da sociedade. Collor assumiu. Inflação, corrupção e crise de novo. Quando Fernando Henrique Cardoso passou o poder para Luiz Inácio Lula da Silva, era um fato raro. Tratava-se de um presidente civil eleito pelo voto direto passando o poder para outro presidente civil eleito pelo voto direto. Não ocorria desde 1961. Isso seria repetido na transmissão Lula-Dilma. Normalidade constitucional ser excepcional é uma mostra de que há algo de “podre no reino da Dinamarca”. Os estômagos ficaram mais famintos. Os ouvidos se multiplicaram. Os milhafres voam cada vez mais baixo em busca de presas fáceis. Rouxinóis, desesperados, começam a pensar em apoiar o partido das águias e falcões. Estarrecedor! Cegueira galopante! Pessoas protestando para pedir um regime que... proíbe protestos. Jovens desejando o que nunca experimentaram. Bandos de pardais e rouxinóis indo para lá e para cá e dizendo “salve a ave de rapina”! Qual a lógica? O mascote da Sadia, o simpático Lequetreque, é um frango. Tem lógica e, aliás, muito superior a La Fontaine ou Esopo. É preciso ter esperança em algum rouxinol que cante e acredite em outras aves canoras.

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