Ouvir bem para criar Eicher

As viagens do homem que define melhor a essência dos chamados sons contemporâneos

JOÃO MARCOS COELHO, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h09

"O cérebro humano não pode ser vendido como grãos de café ou como um queijo qualquer, que, como todos sabem, primeiro precisa ser produzido, com leite, urina, etc. O cérebro humano em si não é um produto vendável". A frase é de Beethoven, compositor que marcou a mais radical revolução da música na história. Antes dele, a música era funcional, ou seja, significava, para a cidade, tanto quanto o carteiro ou o padre tocando o sino da igreja. Mesmo com sua recusa a curvar-se diante de nobres em Viena, em passeio com Goethe (este sim, dobrou a espinha para saudá-los), alguns nobres da cidade, com medo de perdê-lo (ele ameaçou mudar-se para Paris), cotizaram-se com o arquiduque Rodolfo para garantir-lhe uma mesada anual sem vínculo com o que viesse a compor.

A contundente frase de Beethoven e a atitude dos nobres afloram na medida em que se assiste ao emocionante Sounds and Silence, DVD que busca capturar o processo de trabalho de Manfred Eicher, o mais importante produtor musical da atualidade. Os suíços Peter Guyer e Norbert Wiedmer, diretores do documentário, escrevem que "Eicher representa a música que se recusa a ser meramente consumida e músicos com vidas coloridas, convicções e habilidades extraordinárias". Ele nunca impõe nada, musicalmente. Sua missão é construir as condições ideais para seus músicos criarem. Bem parecido com o que fizera o arquiduque Rodolfo, na Viena dos primeiros anos do século 19 com Beethoven.

Ex-contrabaixista da Filarmônica de Berlim, Eicher descobriu em 1969, aos 26 anos, que seu negócio não era exatamente tocar, mas ouvir música. Acertou em cheio. Ele é um ouvinte especial, porque, como diz Peter Szendy, cada época tem um ideal de escuta e um ideal de obra que constituem o normal, o óbvio. Há as exceções raras, porém. "Se continuo hoje a amar Mozart, Beethoven, Schumann, Liszt, Berlioz, Mahler, Schoenberg, Boulez e tantos outros, é porque ouço de outra maneira; e esta 'outra maneira' ainda não aconteceu, não foi entrevista nem poderia ser calculada ou deduzida de algum modo a partir do que foi", argumenta Szendy.

Há 42 anos, Eicher sai pelo mundo à cata de músicos e músicas que se recusam a integrar um sistema, ou enquadrar-se a esquemas comerciais - fundamentalmente guiado pelo seu infalível faro de ouvinte em busca dos não-integrados. Sem nenhum contorcionismo teórico, Eicher demonstra, com seus mais de 1.000 títulos já produzidos, o conceito real de música contemporânea. Um conceito inclusivo, que incorpora as músicas instrumentais/vocais improvisadas, as mais diversas correntes da criação erudita contemporânea, do leste europeu e Rússia às vanguardas europeias; e o jazz em suas diversificadas práticas.

Durante cinco anos, Guyer e Wiedmer o seguiram pelo mundo em sua silenciosa missão de parteiro das novas músicas. O exigentíssimo ouvinte Eicher passeia sorrateiro pelos sets de gravação, cochicha com técnicos, modifica as condições de produção da música com gestos modestos.

São momentos eletrizantes deste maravilhoso documentário. Um deles, por exemplo, acontece quando o compositor estoniano Arvo Pärt, na Igreja de São Nicolau, em Tallinn, literalmente dança uma valsa com Eicher ao som de sua peça Für Lennart in Memoriam. Outro momento inesquecível acontece quando o bandoneonista argentino Dino Saluzzi, depois de uma performance com a violoncelista Anja Lechner, convida-a a uma 'tangueria' portenha.

Não deixa de ser curioso que o músico símbolo da ECM, Keith Jarrett, só apareça em sons na abertura - quando Eicher o ouve no toca-discos tocando Leitura dos Livros Sagrados de Gurdjieff. "Tento ser intuitivo. Minha tarefa é tentar ser um bom ouvinte", diz Eicher. O único pecado do lançamento é a ausência de legendas em português.

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