Ouvidos e olhos bem abertos

Nathalie Baye mata a charada. Comentando o fato de que Pierre Salvadori escreveu Uma Doce Mentira para ela, enumera as qualidades que permitiriam ao cineasta conseguir outra atriz, e fazê-la criar brilhantemente o papel, caso não tivesse conseguido interpretar o filme em cartaz. Pierre, segundo Nathalie, é um roteirista que tem ouvido apurado para os diálogos e, como diretor, tem um bom olho.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2011 | 00h00

Ouvidos e olhos bem abertos, portanto. Quando se trata de conflito entre mãe e filha, há um filme clássico que vem à mente. Existem outros, mas nenhum supera a cena de Concerto de Outono, de Ingmar Bergman, em que a pianista Ingrid Bergman senta-se ao piano e humilha a filha, mostrando como a música deve ser tocada, não do jeito que o faz a personagem de Liv Ullman.

Concerto de Outono era um drama pesado, no melhor estilo de Bergman. Uma Doce Mentira é, comparativamente, mais leve. Há que desconfiar da leveza. Emilie, Audrey Tautou, quer ajudar a mãe e, por isso, conta uma mentira piedosa, no episódio da carta anônima de amor. Mas as coisas escapam ao controle, os sentimentos, também - sempre eles. Maddy, a personagem de Nathalie, descobre a verdade. Ferida em seu orgulho, revida.

A arte (grande?) de Pierre Salvadori consiste em transformar sua história de mentira em algo verdadeiro. A verdade, ou as verdades, terminam por aflorar. Esses conflitos íntimos, essas confissões verdadeiras, seguem o caminho observado por Nathalie Baye. Necessitam de diálogos que soem convincentes para os espectadores e de atrizes que os digam com convicção. O filme é bom, o diretor, talentoso, mas as atrizes - elas são ótimas.

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