Outros cisnes

“O amor às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes.”

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2018 | 02h35

– O que é isso?

– Paulo Mendes Campos.

– Paulo Mendes Campos?!

– Estou relendo. Eu nunca mais tinha lido esta crônica. O Amor Acaba. Uma vez nós lemos juntos, você se lembra?

– Não.

– Faz tempo. 

– Você e eu lendo uma crônica juntos é difícil de acreditar.

– Eu sei. Não fazemos mais nada juntos. Mas eu, pelo menos, me lembro.

– Só você, mesmo, pra desenterrar esse livro velho.

– Foi você que me deu.

– Eu?! 

– Olha a dedicatória. “Com amor eterno.”

– Meu Deus. “Amor eterno”?!

– Uma coisa que existia antigamente.

– Ih, lá vem drama...

– “Diante dos mesmos cisnes...” O que seriam os cisnes, no nosso caso? Que eu me lembre, começamos a namorar numa reunião dançante e eu pedi você em casamento numa fila de cinema. Não havia nenhum cisne por perto.

– Aposto que você se lembra até do filme.

– Era, era...

– Eu não acredito. Você vive no passado. Na outra noite, foi o único do grupo que se lembrava de toda a letra de Marcianita.

– Sabe o que o Ernesto me contou? Olha que história triste. Ninguém entendia por que ele e a Vanda nunca tinham se separado. Não podia ser para manter as aparências. Todo mundo sabia que o casamento deles era um fracasso, nem um nem outro escondia isso. Os filhos já tinham saído de casa, já eram adultos, a separação não os afetaria. Os amigos do casal não se surpreenderiam com um divórcio, era óbvio que o amor entre eles tinha acabado havia muito tempo. Era até bom que se separassem, para nos poupar dos constantes bate-bocas na nossa frente. Você mesmo dizia que não entendia como eles ainda se aturavam, vivendo na mesma casa e se odiando daquele jeito. A gente até especulava: uns achavam que era ela que não dava o divórcio, para infernizar a vida dele, outros achavam que era o contrário. Finalmente se separaram, e ontem o Ernesto me contou por que tinha demorado tanto, e o que o levou a concordar com o divórcio. Foi uma descoberta que ele fez.

– Que descoberta?

– Uma coisa banal. Uma coisa que existe há anos, mas ele não sabia.

– O quê?

– O cortador de unha. Entende? Durante anos, mesmo se odiando, a Vanda cortava as unhas dele com tesourinha. Ele precisava dela para cortar as unhas da sua mão direita e dos pés. Ela talvez usasse a tesourinha como um símbolo do seu domínio sobre ele. Por isso, escondera a existência do cortador de unha, com o qual ele poderia cortar suas próprias unhas, inclusive as da mão direita e as dos pés, e que a tornaria obsoleta. A tesourinha era a última coisa que os unia. Não é uma história triste?

– Não, é uma história ridícula.

– Acho que foi por isso que eu procurei essa crônica do Paulo Mendes Campos. O amor acaba com o tempo. O amor acaba com o esquecimento. O amor acaba como começou, mesmo que seja diante de outros cisnes. E o amor também acaba entre dois cliques de um cortador de unhas.

– Literatice. 

– Olha o fim da crônica: “Em todos os lugares o amor acaba, a qualquer hora o amor acaba, por qualquer motivo o amor acaba, para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba”.

– Me poupe. 

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