Outro olhar feminino

Região põe em relevo a obra original de Zulmira Ribeiro Tavares - longe dos modelos

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2013 | 02h12

A questão é mais emergencial do que aparenta: já passou da hora de se refazer o cânone da literatura brasileira. Passou o momento de deixar de torná-la solene demais, distante demais, sem uso tanto no espaço público quanto na afetividade íntima dos leitores. É momento de oxigená-la, permitindo que fiquem de lado as décadas de hiperintelectualismo com que operam certos termômetros da crítica no Brasil.

Algumas considerações no âmbito da ficção.

O cânone Machado-Rosa-Lispector desertifica a literatura brasileira: cria um termômetro tão caprichoso que prejudica a organização das poéticas de outros escritores, sua visibilidade. E mais: faz uma eleição que marginaliza discursos narrativos, alguns deles potentes, para uma situação de ilegibilidade, uma vez que ler por meio do cânone Machado-Rosa-Lispector não realça as qualidades, abordagens e enfoques que autores como Jorge Amado, Nelson Rodrigues, Marques Rebelo, Dyonélio Machado e Osman Lins, por exemplo, elegeram para enfrentar a realidade brasileira, e seus mundos específicos. Há escaninhos cosméticos que comportam mal essas poéticas, mas a realidade é que toda uma cultura literária está marcada pela negação: a de não ser Machado, a de não ser Rosa, a de não ser Lispector.

E essa eleição soterra a visibilidade e apreciação não apenas de grandes escritores - Ignácio de Loyola Brandão, Autran Dourado, João Ubaldo Ribeiro, entre outros - como expurga a possibilidade de se consolidar a qualidade de cânones pornográficos, especulativos, fantásticos, folhetinescos, policiais. Modos enriquecedores de se organizar a cultura brasileira, que lidam com nuances importantes dela, essenciais, e que invistam mais em um uso desprendido da leitura, e de como pensar o Brasil por meio de sua literatura, e que incluam escritores peculiares como Adelaide Carraro, André Carneiro, Marcos Rey, Campos de Carvalho, José Louzeiro.

A sombra de Lispector é a mais sufocante e tem organizado a prosa escrita por mulheres no Brasil de maneira insatisfatória. Não apenas sua obra foi criada em uma linha lírica experimental a partir do qual aliena os trabalhos mais pristinos de Dinah Silveira de Queiroz, Rachel de Queiroz e Lygia Fagundes Telles, como também banaliza as eleições estéticas mais radicais de Hild Hilst, Marcia Denser e a Nélida Piñon da juventude, por exemplo.

Pois bem: é nesse contexto de subtração que se inscreve a extraordinária Zulmira Ribeiro Tavares. Sua literatura - estoica, fria, equilibrada - se encontra tão na antípoda do que Lispector fez que é como se Zulmira não existisse no espaço público. Ela pode não ser uma Lispector, mas Lispector não é uma Zulmira. E esse outro lado da equação é libertador.

Região acelera o processo de reedição da obra de Zulmira pela Companhia das Letras e reúne seus primeiros três livros de contos, mais textos dispersos - dois ensaios, contos publicados em jornais e revistas, e poemas - que teriam dificuldades de encontrar um livro apenas para eles. Zulmira é essencialmente uma satirista - não surpreende sua afeição por Gógol em um dos ensaios. Ela nega a natureza épica que uma metrópole como São Paulo sugere, preferindo a estratégia de dissolução desse espaço, investindo no instantâneo, no restolho de conversa, no perfil veloz.

Há algo de essencial nessa prosa que evade justamente no momento em que poderia se traçar alguma intimidade: é do urbano a doença do privado, da individualidade. E essa estratégia vai de encontro ao seu universo de eleição: certa classe média alta entravada pela encenação, pelo enlevo da etiqueta. Ela se aventura com brilho em outras classes sociais - e o impecável Cortejo em Abril atesta isso -, mas sua prosa alcança uma voltagem mais ferina visitando o universo mais abastado da capital paulista, e que está no coração do melhor romance escrito sobre a última ditadura brasileira, a sua obra-prima O Nome do Bispo (1985).

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO, FICCIONISTA,  AUTOR DO CONTO NATUREZA MORTA,  INCLUÍDO NA EDIÇÃO DA REVISTA GRANTA QUE REUNIU JOVENS ESCRITORES BRASILEIROS

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