OUTRO MUNDO SEM PIETÀ

Dois filmes que venceram prêmios importantes em Cannes no ano passado chegaram juntos às telas da cidade. Ambos estrearam na sexta - A Caça, do dinamarquês Thomas Vinterberg, que deu o prêmio de melhor ator para Mads Mikkelsen, e Depois de Lúcia, de Michel Franco, que venceu a mostra Un Certain Regard, que integra a seleção oficial. Na entrevista ao Estado, Vinterberg disse que um de seus objetivos, senão o principal, foi criticar a facilidade com que os rumores se propagam no mundo atual. Em A Caça, Mikkelsen é acusado de abuso infantil. O espectador sabe que não é verdade, mas o rumor, como vírus na internet, se propaga. Algo semelhante ocorre no filme mexicano. Lúcia deixa-se gravar num momento de intimidade com o namorado, ele divulga a cena na internet - e a vida dela nunca mais será a mesma, como a de Mads Mikkelsen em A Caça.

O Estado de S.Paulo

25 de março de 2013 | 02h08

São filmes sobre a violência. A de Vinterberg atinge uma comunidade na qual todo mundo era amigo e, de repente, os personagens estão se matando (ou quase). A de Depois de Lúcia passa-se no ambiente escolar. E é muito forte, quase insuportável, a ponto de muitos críticos - as mulheres, principalmente - terem reagido mal ao trabalho do diretor Franco. A violência que atinge Lúcia - e a faz passar por verdadeiro calvário - é travestida de inocência inconsequente e isso a torna mais assustadora. Só para lembrar - competia, na mesma seção de Cannes, Indomável Sonhadora, de Beinh Zeitlin, que foi indicado para o Oscar nas categorias principais (e também está em cartaz nos cinemas brasileiros).

Depois de Lúcia começa com uma mudança na vida de um chef e de sua filha de 15 anos. Tessa Ia é quem faz o papel. A mãe morreu, o pai transfere-se de Puerto Vallarta para um restaurante na Cidade do México. Lúcia integra-se à nova escola. Nada é fácil para nenhum dos dois, mas a situação se complica quando Lúcia se envolve com o garoto mais desejado da escola, o que faz dela objeto de ódio das coleguinhas. Quando Lúcia se deixa gravar em cenas íntimas e o namorado canalha vaza as imagens na internet, começa a temporada de caça.

Hollywood já tratou da mesma situação, mas no formato de comédia teen ou de vingança de meninas malvadas. Michel Franco joga mais pesado e o que mais irritou as feministas foi a passividade com que Lúcia se submete às provações. Não faltam sugestões para que isso ocorra - Lúcia pode estar querendo preservar o pai já abalado pela perda da mãe e talvez ela também pense em se suicidar socialmente como forma de renascimento. Seja como for, o que Franco propõe - e mostra - não é fácil de seguir. A brutalidade do filme pode ser nauseante, e com frequência é, mas não pode ser acusada de gratuidade. Tudo isso ali com um sentido.

Até onde Lúcia irá, pergunta-se lá pelas tantas o espectador aflito? Até onde o público também vai aguentar, e é essa outra pergunta que interessa, porque dá o tom de Depois de Lúcia. Franco adota uma narrativa seca e direta, prescinde de música e carrega no registro realista das interpretações do elenco jovem. Com exceção da protagonista, todos os demais são amadores. Franco quis uma profissional justamente para que ela tivesse plena consciência da divisão entre realidade e ficção. O clímax na lancha é particularmente incômodo e o espectador vai se sentir preso à poltrona, como a câmera (que é fixa), enquanto o pai de Lúcia... Tãs-tã-tã. Não há inocentes no mundo filmado por Franco. Compaixão zero. Os jovens são coniventes, os professores são impotentes. Quanto a nós, o público, o que Franco menos quer é nos deixar na zona de conforto. Como Kim Ki-duk em Pietà. / L.C.M.

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