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Outras vozes, outros lugares

Entre os livros de Carlos Rangel, prefiro o último, ‘Marx e os socialismos reais e outros ensaios'

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2020 | 03h00

Na última vez que estive em Caracas, Sofía Ímber me relatou com uma riqueza de detalhes aquele dia horrível de 15 de janeiro de 1988. Carlos e ela se levantaram ao amanhecer, como de hábito, para seu programa de TV, Buenos Días, e tudo transcorreu de modo tranquilo, sem as polêmicas e gritarias tão frequentes. Ambos se aprontavam para sair, ela para o seu museu e ele para seu escritório para escrever os artigos que eram publicados no El Universal ou na revista mexicana Vuelta, de Octavio Paz. Carlos lembrou então que havia um pacote de que necessitava com urgência, pediu que sua mulher fosse buscá-lo. “Demorei dez minutos no máximo”, disse-me ela. Quando voltou, a casa havia mudado.

Reinava um silêncio profundo em todos os aposentos. A voz de Sofía era insegura: “Carlos!, Carlos!”. Encontrou-o no banheiro com o revólver na mão. Ele havia se suicidado.

Foram ditas muitas coisas sobre o suicídio de Carlos Rangel que não sabemos no que acreditar: que havia uma longa lista de suicidas em sua família, que estava convencido de que a América Latina havia optado por seguir o bom caminho, ou seja, a via democrática e liberal que ele tanto defendeu, e agora poderia morrer tranquilo.

O que teria sido dele com as ditaduras de Chávez e Maduro? Estaria preso, teria sido assassinado como tantos adversários desses tiranos, ou se exilado na França, onde se encontraria muito com Jean-François Revel, que o incentivou a escrever seu livro, de 1976, Do bom selvagem ao bom revolucionário, que suscitou polêmicas em toda a América Latina.

Carlos Rangel nasceu em 1929, estudou na França, onde conheceu Revel, que muito o influenciou. Praticou o jornalismo desde muito jovem, defendendo a democracia naqueles anos em que o delírio marxista se apoderava de todas as universidades do Ocidente. Quando o conheci, e sua mulher, Sofía, acabavam de aceitar um convite da Universidade Central da Venezuela – então domínio da revolução e da guerrilha, e hoje uma forte resistente à ditadura de Maduro – onde, para chegar ao auditório, tiveram de suportar insultos, cuspidas e pedradas. Mas eles se apresentaram, defendendo diante de uma corja ensurdecedora os valores liberais que ambos defendiam contra ventos e marés.

Eram “outras vozes, outros lugares”, repetindo o título de um romance de Truman Capote. Embora em meio a bofetadas e socos, ainda se podia falar. Agora não mais: um manto de trevas e sangue se estendeu sobre a terra de Bolívar. A aparição de Do bom selvagem ao bom revolucionário, em que Rangel comparou o fracasso político da América Latina com o êxito democrático e industrial dos Estados Unidos, foi a exceção à regra sociológica e política daqueles anos, quando proliferavam os ensaios sobre a teoria da dependência e do subdesenvolvimento e a captura do Estado pelos agentes culturais, de inequívoco sabor gramsciano. Sem a mínima hesitação, Carlos Rangel defendia a liberdade, a propriedade privada, a economia de mercado, a globalização – o cúmulo dos cúmulos – como a fórmula que os países deviam adotar para vencer o subdesenvolvimento. Depois desse livro, publicou logo depois El tercermundismo, em 1982, e, em 1988, postumamente, foi lançada essa excelente coleção de ensaios, Marx e os socialismos reais e outros ensaios. Seu grande prestígio – e os muitos ódios – que ele atraiu teve por base esses três livros e as centenas de artigos que escreveu.

Acabo de reler Do bom selvagem ao bom revolucionário e é incrível como aquelas propostas tão sensatas, que hoje são as de uma imensa maioria de latino-americanos, de governos civis nascidos de eleições autênticas, de uma imprensa livre e crítica, de empresas independentes, e para o combate à pobreza com investimentos nacionais e estrangeiros e uma educação pública de alto nível, provocaram tanta controvérsia. É provável que naqueles anos de ideologias e políticas destrutivas tenha sido lavrada a ruína de uma América Latina que o coronavírus mergulhará na miséria. No ensaio, há uma supervalorização dos partidos social-democratas, que Rangel chama de “apristas”, porque nasceram das ideias do peruano Victor Raúl de la Torre; nem todos funcionaram tão bem como na Venezuela, onde, graças a Rómulo Betancourt e Carlos Andrés Pérez, deram bons resultados, mas em outros países, como Peru e Argentina, que sofreram muita influência do nazismo, como também do comunismo, foram fonte de corrupção e chegaram mesmo a praticar o terror. Ninguém diria hoje que o peronismo argentino, que destruiu o país, difundiu ideias liberais e democráticas nessa que foi a grande nação do Rio da Prata e hoje está em ruínas. No livro, há também uma perigosa admiração por certos caudilhos, como Porfírio Díaz, e alguma simpatia pelo “sistema” do México, que ele apresenta como o único país em que não houve golpes de Estado nem revoluções em meio século. Como se a “ditadura perfeita” do PRI não tivesse concentrado todo o horror e a corrupção que prevaleciam esporadicamente em outros países latino-americanos.

Pequenas fraquezas que parecem ter escapado no caso deste democrata íntegro e valente que foi Carlos Rangel.

Entre seus livros, prefiro o último, Marx e os socialismos reais e outros ensaios. O prólogo que ele escreveu para uma edição da Ateneo, em Caracas, em 1980, do Manifesto comunista, é uma pequena obra-prima, sobretudo a maneira como ele aborda a forma como aquelas ideias antiquadas e defasadas foram se infiltrando nos países do Terceiro Mundo e gerando uma esperança de libertação, trabalho limpo e uma vida decente e justa nas massas famintas e oprimidas. Por outro lado, os artigos publicados no El Universal de Caracas eram de uma rigorosa informação – num deles ele comentou com uma riqueza de detalhes a polêmica entre Sartre e Camus e o “caso Padilla” e as indignas denúncias que esse poeta cubano fez em uma sessão pública da União de Escritores, contra seus colegas e amigos que falavam mal da Revolução e eram potenciais “dissidentes”.

Só não concordo com Rangel quando defende que as ideias políticas que valem para o Ocidente não servem para a América Latina e é preciso buscar outras que se adaptem às nossas tradições e aos nossos costumes. Por que não valeriam para nós? Todos os países, sem exceção, da Europa e da Ásia, sem falar da África, sofreram tiranias execráveis e tiveram sonhos quiméricos que os empobreceram e arruinaram, e depois alguns, como Cingapura, Coreia do Sul e Taiwan, com o tempo descobriram a fórmula do verdadeiro progresso e a aplicaram e hoje superaram a fome, o desemprego e o subdesenvolvimento e começam a viver na prosperidade e na liberdade. Por que a América Latina não poderia seguir seu exemplo?

Uma última palavra sobre Sofía Ímber de Rangel, uma dessas mulheres venezuelanas íntegras e valorosas que arriscam a vida liderando a resistência à ditadura de Maduro. Sozinha ela criou, assediando seus amigos pintores – que eram os melhores – para eles doarem seus quadros, o Museu de Arte Contemporânea de Caracas, com uma coleção de alto nível, um exemplo para toda América Latina. O comandante Chávez primeiro apagou o nome de Sofía do museu e depois o “nacionalizou”. Sofía morreu a tempo de não ver o que restou desse museu no qual trabalhou metade da sua vida.


TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 


É ESCRITOR PERUANO, AUTOR DE ‘PANTALEÃO E AS VISITADORAS’, ENTRE OUTROS

 

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