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Outonos

Essa época traz a reflexão sobre a finitude, a temperatura mais amena e a introspecção

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

04 Abril 2018 | 02h00

Deve ser difícil para a criança brasileira, especialmente ao norte do País, ver no livro didático que existem quatro estações. Ela percebe apenas uma estação quente com mais chuvas e outra quente com menos chuvas. O modelo de percepção das estações que importamos da Europa temperada sempre foi problemático. Uma vez perguntei (na época em que existia primário) a uma professora: temos flores o ano todo, por que a gente fala da primavera como estação das flores? O mesmo valeria para perceber o outono como estação das frutas. Ler textos europeus ou norte-americanos e viver em área tropical é sempre um desafio.

Não temos quatro estações bem definidas. Em áreas subtropicais de altitude como uma parte do Sul do Brasil, existe um período mais quente e um mais frio, e um período de transição que pasteuriza os habitantes com extremos de variação e jogos de massas de ar. É difícil manter saúde com as oscilações. 

Árvores vermelhas e frio aumentando: paisagem perfeita que imaginamos no Primeiro Mundo. De fato, o outono na Nova Inglaterra é uma das coisas mais bonitas que a natureza pode oferecer. Também peguei um outono inesquecível no Japão. A caminho do Monte Fuji era complicado saber para onde olhar: tudo era perfeito. A palheta de cores do outono temperado é extraordinária.

Saiamos de sonhos setentrionais. Amo também nosso tíbio outono tupiniquim. Em geral, os calores mais intensos diminuem gradativamente. Lufadas polares de breve duração trazem ares hibernais às ruas. Árvores importadas do Hemisfério Norte, como plátanos e bordos (minhas preferidas), podem trazer um colorido ao monocromatismo do verde luxurioso do Brasil. Chegou a época dos caquis, a fruta que os portugueses chamam de dióspiro, para protesto permanente de Ruth Manus. Também há figos e goiabas. Muitas variedades de abacates chegam ao ponto certo a partir de abril. 

A luz do outono é imbatível. O céu ainda não assumiu o tom cinéreo do inverno e já perdeu a exuberância coruscante do verão. Desde criança, eu achava lógico que a festa máxima do Cristianismo ocorresse no outono para os devotos do Brasil. Certo, na Europa é primavera, mas se eu fosse Jesus ressuscitaria mesmo no outono. Páscoa implica a luz do fim de março e abril e a indefectível lua cheia que marca sua chegada. 

Confesso algo longe da unanimidade: minha alegria com o outono é que se anunciam os primeiros ventos gelados. Amo o frio e abomino o calor. Difícil escrever e pensar no verão. Complicado dar aula para 50 pessoas em clima de 36 graus. Professores sofrem muito com os meses estivais. Um sexto ano em novembro, com o sol batendo na janela, último período de aula, logo após uma aula de educação física, seria, se Dante fosse vivo, o material mais forte para o florentino adicionar um décimo círculo ao seu Inferno. 

O outono traz a reflexão sobre a finitude, a temperatura mais amena e a vontade da introspecção. O verão é em si pura imanência do momento. Em um dia quente, pensamos em um dia quente. Em dias outonais pensamos que o frio vai aumentar, que existe inverno à frente. O outono tem devir, o verão, apenas aqui e agora. 

Tenho de reconhecer uma vilania. Na idade em que me encontro, as roupas de frio ficam melhores do que as sungas. Casacos e mangas cobertas aumentam muito minha autoestima de senhor maduro. Em minha defesa: impúbere eu já amava a estação em curso, o declínio apenas adiu mais argumentos a minha preferência. Quantas pessoas há que amam luvas como recurso contra manchas senis? Milhares de senhoras provectas que aderem à echarpe como um recurso a ocultar as camadas de pele sob o pescoço em teimoso balanço impudico? O verão tem um amor à verdade arrogante dos corpos. O outono e o inverno admitem maior generosidade na fantasia. A roupa de frio é nossa burca salvadora após ter passado o cabo Bojador.

Encontro-me no chamado outono da vida. Estamos envelhecendo desde o nascimento. A partir de determinado instante, as marcas do tempo se instalam e não podem ser mais evitadas. Há sinais físicos e psíquicos. A música alheia fica alta demais, a cama se torna um programa poderoso e com cada vez menos concorrentes, as rugas vão cavando seus cânions, a vida se cobre de mais cuidados, aumentam remédios e desponta a primeira colonoscopia. As propagandas de farmácias e casas para pessoas de mais idade mostram velhinhos sorridentes e velhinhas dinâmicas. O mundo da propaganda é sempre o mundo desejável. 

A fase atual, segundo meu amigo Luiz Alberto Hanns, é da maturidade com saúde. Estou em esplendoroso outono. Em breve, os rigores do inverno vão aparecer de forma mais decidida. Cícero recomendou não pensar na força que se tinha, mas na que possuímos. Norberto Bobbio atualiza os conselhos do senador romano com um pouco mais de melancolia. Sua advertência é dura: quem louva a velhice nunca a conheceu de fato. Não me sinto velho, apenas fico melhor à luz de velas do que com lâmpadas de consultório dermatológico. Como eu disse, o outono contém mais sobre o futuro do que o verão. Amo o outono e temo um pouco o alto inverno. Um aceno loução para os estivais e primaveris, e um terno abraço aos outonais e hibernais. Sigamos comendo dióspiros, Ruth. Bom outono para todos nós. 

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