Ousadias do século 21

Jeremy Denk comete uma ousadia sem tamanho: emoldura com estudos do compositor húngaro Gyorgy Ligeti a mais revolucionária e enigmática sonata de Beethoven, a última, "a 111". E nos leva a ouvi-la de modo tão subversivo e inovador como já não pensávamos que fosse possível.

O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h11

"Não há nada mais perverso do que os estudos para piano. Escalas, terças, sextas, oitavas, todas as contorções possíveis de dedilhado visitadas em todas as tonalidades possíveis - é o pior dos pesadelos", escreve Denk. E por que Ligeti/Beethoven, pergunta Denk? "Porque ainda hoje estamos em busca de Beethoven. Os românticos descartaram o período final de Beethoven, talvez porque ele era perturbador demais naquele momento histórico. Precisamos esperar o século 20 para encontrar uma continuação, uma ressonância. Os Estudos de Ligeti parecem às vezes com sequelas do último Beethoven."

A frase não é gratuita. A 111, diz, roça o infinito, parece gradualmente revelá-lo. Não há final, a sonata termina numa elipse, quase incorporando o silêncio que virá. "Outra conexão crucial é a relação com a síncope, com a confusão rítmica, com o jazz (no caso de Beethoven, prolepticamente!)." O palavrão quer dizer que Beethoven se antecipou cronologicamente, enunciando algo que só viria a se concretizar quase um século depois. Denk chama esta 'confusão rítmica' de "o boogie-woogie de Beethoven". Não ironize. Ouça o Allegro da 111 e o Estudo "Desordem", por exemplo. Ou o Estudo Arco-Íris, uma transfiguração do pianista Bill Evans.

Músico não gosta muito de conversa. As exceções são raras. Mas quando consegue ser tão bom falando quanto tocando, temos então o melhor dos mundos. Jeremy Denk é um legítimo representante desta linhagem de músicos que não só toca muito como pensa e escreve bem.

Você, não sei, mas eu já decidi. Destes três "Beethovens", fico com o de Denk. / J.M.C.

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