Ousadias de um barítono

Com O Nariz, Paulo Szot arriscou, venceu e confirmou sua versatilidade

Lúcia Guimarães / NOVA YORK, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

Eduardo Amir e Paulo Szot já haviam dividido o palco em produções brasileiras como O Morcego, Carmen, Don Giovanni e O Barbeiro de Sevilha. Eduardo, um carioca do Grajaú, é também conhecido por ter vivido o Harry de My Fair Lady e o Andre de O Fantasma da Ópera.

Enquanto Paulo posa pacientemente para as fotos - paciência é uma palavra-chave de sua carreira -, Eduardo, que se recosta na poltrona para a conversa, celebra a atuação recente do cantor com encantamento sincero e não como desfrute vicário do sucesso alheio.

Uma das paixões do barítono foi reprimida com a súbita mudança para Nova York. Assim como ele não fazia planos a longo prazo, já está no terceiro apartamento alugado por temporada, não esperava ficar privado de seus cinco cães weimaraners que correm soltos pelo seu sítio em Ribeirão Pires, na região do Grande ABC. Por enquanto, ele mata a saudade pelo Skype e se diverte dizendo comandos online que os cachorros obedecem.

Os weimaraners mal desconfiam que um certo Pedro Almodóvar os separa de seu dono elusivo. Paulo Szot foi convidado para viver Ivan na primeira versão teatral de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, o filme que colocou o espanhol na curta lista de diretores estrangeiros reconhecidos nos Estados Unidos. Mais uma vez, Emile de Becque exerceu sua mágica. Almodóvar foi assistir a South Pacific para se familiarizar com a direção de Bartlett Sher, que também vai dirigir a versão teatral com música e letras de David Yazbek e libreto de Jeffrey Lane. A estreia está marcada para o dia 2 de outubro, desde que Paulo concilie os seus planos de fazer mais uma turnê de ópera no Texas. O espanhol e Szot já participaram de duas leituras juntos, até agora. "Maravilhoso" é a impressão do barítono sobre o diretor.

"Quando me convidaram para fazer O Nariz, depois de tanto sonhar com o Metropolitan, recusar seria jogar fora uma oportunidade que poderia não voltar nunca mais", lembra o cantor.

Ele concorda quando comento que O Nariz, escrito por Dmitri Shostakovich aos 22 anos, atira o cantor num território de perigo que só um jovem estreando no gênero teria coragem de ousar. William Kentridge, diretor e cenógrafo do espetáculo, lembra que o conto de absurdo de Nikolai Gogol, que inspirou a ópera, trata da singularidade do ser humano e dos terrores da hierarquia. O major, vivido por Szot, acorda um dia sem o seu nariz, que começa a passear impunemente pela São Petersburgo czarista. Enfrentando oito performances de South Pacific por semana, Paulo encarou a partitura durante um ano, preocupado com o desafio, mas sem reverência hierárquica.

Como disse o New York Times, se o cantor queria convencer o público de sua versatilidade, não poderia ter feito escolha mais ousada. "Não é como um trabalho de ópera de repertório. A música não entra fácil na cabeça, os intervalos são dificílimos", lembra. "Mais do que garra, era preciso muita paciência", garante ele.

Não escapou a Paulo a ironia histórica. Emile de Becque foi criado há 60 anos pela dupla de compositores Richard Rodgers e Oscar Hammerstein especialmente para o barítono italiano Ezio Pinza, que acabara de se aposentar no papel de Don Giovanni no Metropolitan. Embora tenha uma carreira de 20 anos de papéis operísticos, foi Emile de Becque o personagem que instalou Paulo Szot no radar nova-iorquino. Ele fez o caminho da volta no Lincoln Center para sete apresentações que vão mudar a sua carreira.

Da janela de seu quarto, o barítono avista os cartazes na fachada dos dois teatros. Uma cruz preta cobre seu nariz no pôster do Metropolitan Opera House. O banner de South Pacific vai receber a estrela pródiga de volta no dia 31 de março. Paulo Szot fica no elenco do musical até agosto, quando deve ser gravado um DVD do espetáculo, e embarca, sem pausa, nos ensaios de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos. A história de Pedro Almodóvar não poderia receber uma adesão mais serena.

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