Ousadia em falta

Julia Bosco navega vertentes de MPB com sensualidade equilibrada. Sua voz não envereda pelo sexy efêmero comum entre a nova leva de cantoras brasileiras, tampouco se entrega aos dramas escancarados do soul contemporâneo. Fica contida, quase camuflada, durante as 13 faixas de Tempo, com uma maturidade anormal para quem está em seu primeiro disco. Isto é ao mesmo tempo a virtude e o ponto fraco de Tempo. Enquanto o canto de Julia transpira um desejo elegante, calcado na tradição jazzística, a sua natureza mais sutil dá espaço para a produção do disco, que a enquadra em um contexto estético extremamente datado.

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2012 | 03h10

Comandada por Fábio Santanna, a proposta do disco mina qualquer chance de destacar Julia da esmagadora mesmice de um pop brasuca ultraproduzido, feito para agradar a quarentões em um churrasco de sábado à tarde. De cara, Desavisados imagina Julia como uma femme fatale de cabaré semelhante àquela que Maria Rita encarna quando não está ocupada sendo uma porta-bandeira de luxo.

Curtição, um groove genérico pontuado por metais (quase uma redundância), tem rima rítmica óbvia (patati patatá, com batida do mar), produzida para cair como uma luva na programação de smooth jazz para FMs. O afoxé-funk de Dia Santo exalta os orixás com pouca substância, embora palmas e agogô quebrem a mesmice da produção. Julia é filha de João Bosco, que participa do disco sem roubar a cena. Talvez o grão mestre da voz e do violão pudesse também ensinar à sua filha a importância de ser ousado.

JULIA BOSCO

TEMPO

Tratore

Preço:

R$ 30

REGULAR

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