Ousadia e vigor na prosa de Barnes

Pertencente ao período dorenascimento da prosa britânica, membro de um seleto grupoformado ainda por Martin Amis e Graham Swift, entre outros,Julian Barnes é exemplo precioso da fina ironia inglesa. Apesarde negar pertencer a qualquer grupo literário, ele desponta emuma geração vigorosa e criativa, conseguindo a triunfanteconciliação entre sucesso de público e ousadias estilísticas. O escritor gosta de participar também de outrasaventuras. Durante a disputas de Jogos Olímpicos, por exemplo,prega os olhos nas transmissões, especialmente das disputas notênis e na natação. Diverte-se também com participaçõesesporádicas no cinema, como a simpática ponta no filme ODiário de Bridget Jones, em que representa a si mesmo. Foi a partir de seu terceiro livro, O Papagaio deFlaubert (Rocco), de 1984, que Barnes ganhou notoriedade -pela obra, tornou-se o primeiro escritor inglês a ganhar oprêmio mais importante da França, o Médicis, em 1986. Dois anosdepois, tornou-se Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letrasfrancesas, alcançando o título de oficial em 1995. Foi o interesse pela cultura do país vizinho, aliás, quetransformou Barnes em admirado francófilo, o que influenciou suaformação cultural. Contribuiu também o fato de que os pais lheensinaram o idioma francês. Ele costuma dizer que, ao pensar noséculo 19, é o nome de Flaubert e não o de Dickens que lhe vem àcabeça, reafirmando sua admiração pela França, como admite nacontinuação da entrevista. Agência Estado - A grande ironia de ´Amor, Etc´. são ascontradições manifestadas nos discursos de Oliver e Stuart e nahabilidade parcial dos personagens para responder um ao outro.Seria essa a importância de ser contraditório? Julian Barnes - Sim, uma epígrafe que serve para os dois livros(e que de fato está no início de Em Tom de Conversa) é ummaravilhoso provérbio russo que diz "Ele mente como umatestemunha ocular". Eu o achei no livro Memórias deShostakovich. Meu irmão, que é filósofo, acredita que todas asmemórias são falsas, sem exceção, e ele provavelmente poderiaprová-lo para você. "Tom de Conversa" e "Amor, Etc." são seustrabalhos mais pessoais? Não, esses livros não são mais pessoais que osmeus outros. Nada, nem remotamente, que acontece nos meus livrostem a ver comigo. As pessoas tendem a presumir que, quando seescreve sobre a vida emocional, deve-se estar referindo a simesmo de alguma maneira. Mas devo confessar que acho mais fácilcriar a vida emocional de um personagem do que, digamos, seusproblemas financeiros. Como seus livros já finalizados determinam seusfuturos projetos? Sempre considerei cada livro (com a óbviaexceção de Amor, Etc.) inteiramente como um novo começo,completamente diferente do que escrevi anteriormente. Oscríticos e os estudiosos conseqüentemente decidem que (como nocaso de qualquer outro escritor) todos os meus livros estãoconectados dessa ou daquela forma. Mas, como eu não leio o queescrevem a meu respeito, mantenho a sadia convicção de que cadaromance está inteiramente dissociado de seus predecessores. Você ainda passa temporadas na França? Sim, viajo três ou quatro vezes por ano paralá: sempre uma ou duas oportunidades durante as férias, mais umavez para pesquisas e outra mais para lançamento de livro. Logoirei para Burgundy para descansar em férias. Mas não tenho casaprópria na França - gosto de descobrir novos lugares, mesmotendo visitado o país mais de cem vezes na minha vida. Seria a França para você o que Nova York é paraMartin Amis? Talvez. Martin Amis é mais um escritor que estásituado literariamente no meio do Atlântico, entre a Inglaterrae os Estados Unidos, do que propriamente um autor essencialmenteamericano. No meu caso, escrevo de um ponto no meio do caminhodo Canal da Mancha, entre Inglaterra e França. Mas minhasinfluências não-britânicas são certamente mais européias queamericanas. O que você achou do surpreendente sucesso doradical de direita Jean-Marie Le Pen no primeiro turno da últimaeleição francesa? Fiquei surpreso como qualquer outro. Fui, emseguida, acompanhar o segundo turno no qual, mesmo que tenhasido estrondosamente derrotado, ele ganhou, com um projetoprotofascista, votos suficientes para se dimensionar a perigosaquantidade de franceses que concordam com suas idéias. Em uma história de "Do Outro Lado da Mancha", onarrador chama a si mesmo de um "romancista inglêspragmático". Você se considera assim também? Como a maioria das pessoas, tão logo umadjetivo se apega a mim, eu o rejeito. Se você diz que soupragmático, respondo dizendo que sou romântico e vice-versa.Provavelmente sou mais pragmático como ser humano do que comoescritor. Não posso me imaginar sendo um escritor"pragmático". Isso me faz tremer de medo ao escreverpalavras. Depois de seu mais recente romance, "In the Landof Pain", sobre o quê você está escrevendo? Estou terminando uma seleção de contos -não-pragmáticos, não-americanos e nada pessoais!

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