Ousadia dos anos 60 é cartaz do MAM

Apesar de cada um dos 21 artistas que participam de Além dos Pré-conceitos - Experimentos dos Anos 60 ser dono de trajetória tão singular que por si só já mereceria estudo, há pelo menos um sentimento comum que atravessa todas as 125 obras da exposição: a ousadia de buscar novas formas de se fazer arte, seja no processo que envolve a criação dos trabalhos, seja na forma como são apresentados ao público, quase sempre algo distante do que se convencionou chamar pintura e escultura.Com curadoria da checa Milena Kalinovska, ex-diretora do Institute of Contemporary Art de Boston, a mostra - que já esteve em Praga, Varsóvia e Buenos Aires - abrange período que vai do começo dos anos 50 até o fim dos 70 e reúne alguns dos mais importantes nomes da arte conceitual ("a arte é a idéia da arte") no mundo, como o japonês On Kawara, o belga Marcel Broodtahers e o brasileiro Cildo Meireles. Todos representantes de uma aposta incondicional no experimentalismo e na crença de que o artista não deve enfrentar mais a matéria, mas uma idéia, o que necessariamente exige a participação mental do espectador. Mas há outros pesos pesados na seleção de Milena, que já valem a visita ao MAM, como Joseph Beuys, Eva Hesse, Bruce Nauman, Sol LeWitt, Hélio Oiticica, Lygia Clark e Ana Maria Maiolino.Contudo, como a intenção da curadora também é revelar artistas desconhecidos do establishment da arte contemporânea, há surpresas interessantes como o iugoslavo Dimitrije Mangelos, o polonês Edward Krasinski e o checo Jiri Kolár. Do Brasil, além de Meireles, estão presentes Anna Maria Maiolino, Hélio Oiticica e Lygia Clark."Todos esses artistas compartilham sensibilidades e histórias parecidas e desenvolveram novos modelos para a arte, fugindo ao objeto tradicional. Se não fosse pelas circunstâncias geopolíticas de isolamento, estariam expondo juntos desde meados dos anos 60, já que responderam a uma situação global de libertação e risco criando os próprios repertórios", explica Milena, reclamando uma maior participação dos artistas da América do Sul e da Europa do Leste nos circuitos de arte americano e europeu. Apesar de sua extrema diversidade, a maior parte da atividade conceitual do período estava unida por uma ênfase quase unânime na linguagem - e por uma convicção de que a linguagem e as idéias eram a verdadeira essência da arte, de que a experiência visual e o deleite sensorial eram secundários, quando não irracionais ou até mesmo imorais. Segundo a crítica americana de arte Roberta Smith (que em 80 escreveu ensaio que se tornaria referência sobre o tema), de todas as tendências que povoaram a cena artística no fim dos anos 60, a arte conceitual foi a que adotou a atitude mais radical e a que, de fato, permanece hoje mais vívida na memória e na influência. Os artistas conceituais foram corajosos o bastante para combinar suas objeções aos meios convencionais com uma alternativa clara e uma posição polêmica.Entre outras pequenas jóias dessa época de ânimos exacerbados, Além dos Pré-conceitos (originalmente Beyond Preconceptions: The Sixties Experiment) é uma ótima oportunidade para ver algumas obras do artista considerado um dos pioneiros do conceitualismo, o americano Sol LeWitt, que em 1967 escreveu na revista Artforum a célebre definição: "Em arte conceitual, a idéia ou conceito é o mais importante aspecto da obra. Todo o planejamento e as decisões são formulados de antemão e a execução é uma questão superficial. A idéia torna-se a máquina que faz a arte." A exposição no MAM é ainda chance rara, no Brasil, de ver alguma coisa da germano-americana Eva Hesse (1936-1970), do ucraniano Ilya Kabakov, do alemão Hanne Darboven e da canadense Betty Goodwin. Além dos Pré-conceitos é mostra itinerante concebida em 2000 pelo Independent Curators International (ICI), grupo baseado em NY que agrega curadores independentes de todo o mundo. A temporada paulistana tem patrocínio do Banco Itaú. Além dos Pré-Conceitos - Experimentos dos Anos 60. De terça, quarta e sexta, das 12 às 18 horas; quinta, das 12 às 22 horas; sábado, domingo e feriado, das 10 às 18 horas. R$ 5,00. MAM. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º, portão 3, tel. 5549-9688. Até 3/3. Abertura hoje, às 19 horas.

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