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Ouro, incenso e mirra

Podemos piorar o quadro: os clichês natalinos são imperativos

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2018 | 02h00

O Natal tem detratores. Há quem considere as músicas depressivas, especialmente Noite Feliz. A presença de passas pintalgando o arroz causa náusea em muitos. Um colega confessava que a iguaria parece uma ninhada de dálmatas sobre travessas de festa. O dourado onipresente é o triunfo do kitsch. Por fim, tudo ocorrerá em meio a pessoas variadas da família. Noite feliz dourada com passas entre genros e noras: sempre entendi a antipatia de tantos ao clima da noite de 24 de dezembro. 

Podemos piorar o quadro: os clichês natalinos são imperativos. A lista de pratos tem variação limitada. Vamos do peru ao tênder e do chester ao pernil como o “samba de uma nota só” ou, no máximo, um acorde de quatro notas repetitivas. Os votos são pouco criativos. Muitos cartões gelariam as mãos da princesa Elsa de Frozen, tamanha a formalidade gélida. Alguns perderam (ou nunca tiveram) o sentido religioso para a data. Sem crianças, o Natal é um deserto maior. Os dias finais do ano são um convite à depressão. O verdadeiro motivo da tristeza, talvez, não seja a data, porém a própria situação de resenha do ano que agoniza. Entendo detratores do Natal. Curiosamente, não sou um deles.

Contrario tudo: amo a festa desde a infância. Adoro o encontro, as músicas e a mesa familiar. Há coisas antigas: alguns enfeites da árvore de Natal que estão há décadas na família, músicas tradicionais, etc. Em contato com tradições outras, trouxe o bacalhau para a mesa de 24 de dezembro. Até então, o peixe só aportava na sexta-santa. A música Oração pela Família (Pe. Zezinho) passou a ser cantada, creio, há pouco mais de uma década. Meus pais adoravam. Não cantamos no primeiro Natal sem meu pai e repetimos o silêncio no ano passado, o primeiro do luto materno. Ela voltará agora, mostrando que o barco segue, que as pessoas continuam e que avós, tios e pais deram seu enorme quinhão de amor, cumpriram seu papel e partiram, exemplo que seguiremos todos, um dia. Há pessoas novas na família e assim a regra universal da vida se cumpre.

Não sou religioso, porém o catolicismo do meu pai está entranhado em mim como um gene a mais. Emociono-me lembrando a última vez que fui a uma missa com ele, no Santuário do Sagrado Coração de Jesus, chamado localmente de “igreja do padre Reus”. Ele sempre me pedia que tocasse peças sacras ao piano ou ao órgão da igreja. Adorava músicas de invocação do Espírito Santo. Em memória dele, de quando em vez, toco e canto um Veni Creator Spiritus (vinde Espírito criador). 

A crença em Deus também amparou minha mãe até o fim. Dentre os muitos erros da minha vida e que me assombram como os espíritos a Lord Macbeth, em noite de angústia dela em meio a uma crise de tosse e temor pela morte, discorri no quarto sobre filosofia e postura racional diante do medo. Eu deveria ter rezado com ela, apenas, abraçado e compartilhado a angústia da nossa finitude. Decidi ser professor em um momento em que ela só desejava um filho e ofereci a objetividade de um cérebro à mãe que suspirava pelo calor de um coração. Aprendi muito, mas, como sempre, depois de ter errado. Amar é pedir e conceder perdão. Arrependo-me, amargamente, da minha insensibilidade.

O que eu amo em um Natal? Celebro a família, a memória de todos, o dia especial em que os irmãos, cada qual com sua trajetória, voltam a ser uma unidade física com sobrinhos e netos. Há vazios e novos preenchimentos e eu opto pela esperança. Alegria é uma vontade e não um dom. Trata-se de deixar de lado melancolias e inevitabilidades da vida, orientar-se para a luz da possibilidade de futuro e do que temos pela frente. Ser feliz implica decidir-se pela felicidade. Estou convencido de que estar bem é um ato de vontade ao qual somamos ações.

Natal é ocasião de abrir mão do controle. Adoramos mandar, especialmente amamos ter poder sobre a lista de convidados. Aprendi que o amor flui com quem desejou e está ali. O do afeto pode existir ainda que a fase da Lua provoque um panorama ainda de penumbra. Um Deus pobre na lapinha deveria estimular um pouco de sinceridade e de reflexão. Nossa vaidade deveria arrefecer, ao menos no Natal. O sentimento de controle deveria ser golpeado pela cena da sagrada família despojada, longe de quem gostava, em crise financeira e nem sequer com comida preparada. O primeiro Natal foi oposto ao nosso e passa longe do nosso orgulho e da onipresente sede de poder. 

Quero desejar a todos que recebam, simbolicamente, os presentes dos três sábios do Oriente. Que haja o ouro da boa comida e dos risos fáceis. Que surja o incenso da capacidade de ir além da matéria e alçar o pensamento aos cumes do amor e da misericórdia. E que a mirra usada para cobrir os que se foram nos ensine que há coisas mais importantes do que lamentar quem não está. O mais fundamental é amar quem chegou e conseguiu ou quis ali festejar. Não chore pelo vazio, festeje o real. Bom Natal aos homens e mulheres de boa vontade!

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