Ouro de tolo

Sofia Coppola se aproxima de uma geração exposta ao glamour sempre presente, mas inacessível

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2013 | 02h15

Embora, até por sua filiação, não seja alheia à cultura das celebridades e da moda, Sofia Coppola jura que o mundo de Bling Ring não é o dela. "Não fiz esse filme para falar de mim mesma, mas posso, e estou, falando da minha geração, ou de uma geração que veio depois. Afinal, já passei dos 40." Bling Ring: A Gangue de Hollywood é sobre um grupo de jovens obcecado por aquilo que se chama de 'glitzy culture', e a diretora explica: "É uma coisa muito particular de Los Angeles, embora acredite que jovens de outros países e culturas possam se identificar com as personagens de meu filme. Em LA, jovens de todas as camadas sociais vivem muito próximos de um mundo de glamour ao qual a maioria não tem acesso. Essa garotada me interessava por estar numa fase de construção da própria identidade, de ainda não ter ideias próprias e ser tão permeável aos apelos da massificação".

O filme inspira-se na história real do grupo de jovens, liderado pela personagem de Emma Watson, que roubou as casas de celebridades. Tudo começou com essa obsessão de seguir as celebridades pela internet. Um dos amigos rastreia as casas de famosos que estarão vazias porque eles estarão em outras cidades ou locais, e o grupo então faz a apropriação. Rouba joias, roupas. A celebridade, aos olhos do fã ou seguidor, impõe tanto pelas atitudes quanto pelo que está usando. Como se trata da apropriação de itens caros - de grife -, os roubos de repente não são só uma brincadeira de adolescentes, mas mobilizam a polícia porque envolvem milhões de dólares.

"O que me interessou nesse filme não foi tanto a transgressão em si, mas o seu significado. Muita gente acha que o filme é sobre o vazio de uma geração. Eu tento não emitir juízos de valores. Aliás, uma coisa que não gosto de fazer é julgar minhas personagens. Prefiro entendê-las. Aquelas jovens suburbanas entediadas (As Virgens Suicidas), a garota que se envolve com o ator blasé (Encontros e Desencontros), a estrangeira, como Maria Antonieta era chamada, a garota que faz as aproximação do pai roqueiro (Um Lugar Qualquer ), o que me move é sempre essa vontade de colocar minha câmera perto de pessoas que não estão confortáveis com elas mesmas ou com o mundo", explicou a diretora.

Menos que na crônica policial do caso, Sofia baseou-se no artigo que Nancy Jo Sales escreveu para a revista Vanity Fair. A própria revista é uma grife e o artigo já era, por assim dizer, uma análise de tendência. Sofia levou adiante a discussão comportamental. Os jovens e Nicki (Emma Watson) não são necessariamente integrantes de famílias disfuncionais. Há uma mãe - fanática religiosa, ou quase - que se preocupa em imprimir valores à família e que toma um susto quando a polícia invade a casa para prender a sua 'menina'. Sofia não psicologiza - "não era a intenção", como ela disse. A garota não rouba para ir contra a mãe, mas justamente por ser uma persona em construção.

Como autora, seja diretora ou roteirista, Sofia trabalha com um universo elitizado, de grifes. Roupas, joias, ambientes, Bling Ring é sobre sonhos nada secretos. Os mais velhos e politizados vão lamentar que esses jovens se ocupem tanto do que lhes parecerá supérfluo. A Gangue de Hollywood é sobre a superficialidade da vida moderna. Em Cannes, Sofia disse que o fato de estar falando de coisas e pessoas superficiais não significa que seu filme não queira ser denso nem profundo.

Cada um terá seu filme preferido da autora. Em As Virgens, ela talvez sugerisse, mas não explicava porque as garotas se suicidam. "Minha função não é fornecer respostas. Prefiro que as pessoas indaguem comigo", reflete.

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