Ouça Summer in the City com Ritchie

Ritchie vai às memórias de infância para fazer um bela imersão nos anos 60

BOLÍVAR TORRES / RIO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2012 | 03h08

Aluno de um colégio interno inglês nos anos 60, Richard David Court esperava o apagar das luzes dos dormitórios para sintonizar seu rádio de pilha, proibido pela direção. Estações piratas como Radio London e Radio Caroline transmitiam, de barcos ancorados em águas internacionais, sucessos americanos dos primórdios do rock'n'roll, toda uma contracultura que começava a se disseminar pela Europa. Garoto tímido em um ambiente dominado pelos extrovertidos e esportistas, Richard via na intensa produção musical da época uma terapia para a solidão. Mas o tempo passou. Em um país distante, trocou os quartos e corredores escuros do internato pelas luzes ofuscantes dos palcos. Sob o codinome Ritchie, tornou-se um popstar emblemático do Brasil dos anos 80, único gringo a vender milhões de cópias cantando em português.

Hoje, aos 60 anos, ele se volta para o passado e revisita, em um disco comemorativo, os tempos do velho radinho de pilha e das emissoras piratas. Intitulado 60, seu primeiro trabalho como intérprete traz de volta algumas das músicas que moldaram sua puberdade. Curiosamente, é também seu primeiro álbum gravado inteiramente na sua língua em quatro décadas.

"Estou nostálgico, mas é uma nostalgia boa. Cheguei a uma idade em que começo a olhar mais para trás do que para frente", diz Ritchie em sua cobertura na Lagoa, Rio. "Tive um prazer enorme ao gravar este disco. Acho que a música é uma espécie de bookmark, e aquelas canções traziam uma enorme ação libertadora num ambiente cercado de regras. Presos nos internatos, tínhamos, graças às rádios piratas, uma janela para um outro mundo, outros países. Era nossa revolução interna. Um pouco como ser hoje um garoto na China e ter conexão com a internet."

60 foi uma espécie de presente de aniversário para Ritchie, que bancou toda a produção pelo próprio selo. Com isso, teve liberdade total para fazer um disco autoral, o que se reflete na escolha do repertório. Quem imaginava encontrar faixas óbvias - Beatles, Kinks ou The Who - ficará decepcionado. Ritchie preferiu o lado B dos anos 60, mexendo na obra de artistas como Paul Jones, Billy J. Kramer & The Dakotas, The Swinging Blue Jeans, Gordon Lightfoot e The Walker Brothers (lista ao lado) - com músicas muito mais presas à sua memória do que ao imaginário coletivo. Aqui, são os outros garotos de Liverpool - Gerry and the Pacemakers - que dão as cartas. "Para mim, o repertório é manjadíssimo: faz décadas que canto essas músicas no chuveiro", diz.

O cantor anglo-brasileiro também tentou fugir do chamado disco de karaokê, repleto de covers fiéis e reverenciais. Nada de assaltar o museu ou exumar cadáveres. Apesar do repertório variado, as faixas têm um toque pessoal, soam como músicas de Ritchie. Forçando um pouco, talvez seja até possível encontrar uma conexão entre The Sun Ain't Gonna Shine anymore, dos Walker Brothers, com aquela sonoridade pop meio esquisita de um Menina Veneno ou Shy Moon.

O resultado é muito diferente, por exemplo, do disco de Phil Collins em homenagem à Motown. Enquanto o ex-baterista do Genesis recriou a produção do período com fidelidade incondicional, buscando inclusive os mesmos instrumentos e técnicas de gravação, Ritchie se contentou em atualizar as versões originais. O som traz uma limpidez que destoa absolutamente das gravações dos anos 60.

Ritchie conseguiu o milagre de contar com orquestra em nove faixas do disco. Os arranjos orquestrais permitiram explorar seu lado crooner - além de remeter aos tempos de infância, quando cantava no coro de igrejas na Inglaterra. "Gravando pela primeira vez em inglês, me dei conta como é difícil cantar em português." Nos anos 80, Ritchie chegou a vender mais discos do que Michael Jackson e Roberto Carlos no Brasil. Seu álbum Voo do Coração vendeu mais de um milhão de cópias. Desde então, é lembrado quase exclusivamente pela geração que dançava Menina Veneno nos anos 80.

Suas ambições para um disco independente como 60 são modestas - espera pelo menos pagar o custo de produção. Fazendo um show por mês graças aos revivals, ele também sabe que a plateia deverá exigir seus hits nas apresentações de lançamento do disco, e adotou como estratégia alternar clássicos oitentistas com as músicas do último trabalho. As associações entre os anos 60 e os 80 não são tão absurdas assim. "O Edgard Scandurra diz que os anos 80 foram os anos 60 do Brasil. Na década de 60, o País vivia uma ditadura e 80 foi nossa libertação. Por isso, há um revival constante do período. A música teve um papel muito forte na abertura. Sua estética pode ser questionada, mas sua força e seu alcance, não."

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