...ou só cortina de fumaça negra?

Ilha da fantasia ficou sem viço e virou um terreno inóspito, com roteiristas perdidos nas próprias arapucas dramatúrgicas

DI MORETTI, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2010 | 00h00

Como previsto, o avião de Lost se perdeu nas brumas da ousadia, se partiu em dois e dificilmente vai chegar ao seu destino sem nenhum arranhão em sua cara lataria. Se fosse apenas um aeromodelo comum, algumas gotas de cola resolveriam, mas como trata-se de um superestimado Airbus, os roteiristas desta série americana ainda estão tentando juntar os caquinhos.

Dá pra entender como esta história chegou até aqui sem usar a bússola da lógica cartesiana. J. J. Abrams e sua equipe de jovens roteiristas quiseram arriscar um voo cego sem direção e nos primeiros anos conseguiram a atenção da audiência mundial. Pegaram um possante multiplot, roteiro com várias linhas narrativas, e tentaram pousá-lo no estreito e improvisado aeroporto de uma ilha perdida no nosso imaginário. Algumas palmeiras e alguns neurônios foram sacrificados, mas o jumbo de ideias aterrissou, pelo menos parte dele, numa praia do Havaí.

As identidades-características dos passageiros-personagens desta viagem-trajetória estão todas lá, banhados nos arquétipos mais conhecidos da dramaturgia universal: triângulo amoroso que opõe rivais de perfis diferentes (Jack e Sawyer) que disputam a atenção da bela e misteriosa amada (Kate), o velho mentor que equilibra seu discurso errático entre o bem e o mal (John Locke), o gordinho simpático, místico e trapalhão (Hurley ), o nerd que comete as maiores atrocidades em nome da ciência e do desenvolvimento (Ben) e as desventuras de uma série de coadjuvantes e núcleos paralelos, que mediante o agrado da audiência conseguiram sobreviver às diversas inversões do vento na ilha e das mudanças bruscas do sentido da biruta do roteiro.

Diante da paisagem monótona e enfadonha das séries americanas, Lost começou com as comendas de diferente, inverossímil, ousado, inovador, inteligente e termina sua vida útil com outros rótulos que poderiam ser complementares, como estranho, confuso, pretensioso...

A grande virtude de Lost, principalmente em sua 1.ª temporada, era tirar o espectador de seu imobilismo lógico, de seu sedentarismo mental, de suas conclusões previsíveis e trazê-lo para um território desconhecido, um trem fantasma de sensações, um fascinante jogo de quebra-cabeças em lugar nenhum. Como diz o diretor/roteirista polonês/americano Billy Wilder, num de seus 10 mandamentos do bom roteiro, "deixe o público somar 2 + 2, ele vai amá-lo para sempre".

Sedução e desgaste. Lost, em seu início, lançou uma série de premissas, de armadilhas, de cantos de sereia narrativos para seduzir os mais incautos passageiros. E, conseguiu! O problema é que o desgaste desta longa viagem, física e psicológica, pelos meandros desta ilha da fantasia transformou este belo e atrativo cartão postal numa foto esmaecida e sem viço. Agora, por mais que o espectador tente colocar a pecinha certa no lugar certo, ela não se encaixa, não forma o desenho prometido na contracapa do joguinho.

Neste terreno inóspito de Lost, os roteiristas cuidadosamente armaram uma série de pequenas e sádicas arapucas dramatúrgicas que não conseguiram ser suficientemente camufladas pelos altos arbustos da ilha. A dimensão do tempo variável, não da trama, mas sim do espectador acompanhando a série, fez com que os próprios produtores desavisadamente tropeçassem nas próprias armadilhas, nos próprios joguetes dramáticos, o que dizer da série de vilões de plantão, ora os Outros, ora Ben, ora Locke, ora Jacob, ora Widmore, ora bolas...

Existe agora uma corrida maluca contra o tempo para amarrar esses nós soltos. A velha fábula de João e Maria já nos ensinava que, para não perdermos o rumo de casa, nem o "foco narrativo", deveríamos ter jogado pelo caminho algumas migalhas de lógica e razão. Para usar uma figura de linguagem aristotélica, agora pode ser tarde demais para achar o caminho de volta com o elixir no meio desta cortina de fumaça negra que se transformou Lost.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.