Ou preto, ou todas as cores do arco-íris

Você quer estar na moda para o próximo inverno? Então aqui vão algumas dicas: escureça seu quarda-roupa. Preto é o novo preto. Sabe aquele discurso ?100% Negro? que tanto sucesso faz na periferia? Pois é, agora é o mandamento das passarelas. Baixou um negrume no prédio da Bienal. O engraçado é que, de repente, quando a coleção decide ser colorida, as listras são em todas as cores do arco-íris, com predominância de pink, amarelo e abóbora. Outra coisa, sempre tenha alguma coisa na cabeça (menos idéias novas, porque parece que a moda não precisa disso). Chapéus, bonés e até ? como no desfile da Iódice ? aquelas toucas de cristais negros como se usava nos anos 20/30. Mais uma vez chamo a atenção: Chocolate com Pimenta não vale. Alugue Chicago e O Grande Gatsby, para ter uma idéia do look que vai pegar na temporada. Que mais? Ah, cachecóis amplos para os rapazes. E todos os padrões masculinos ingleses, como xadrez príncipe de Gales e espinha de peixe. A ressurreição de marcas britânicas como Burberry, Asprey e Pringle?s (que a gente pensava que só nosso tio conservador usaria) dão a tônica da temporada. A silhueta é escorregadia, ampla e às vezes desabada. Os recortes e decotes salientes revelam corpos bem torneados. E as saias (atenção: trata-se de uma estação de saias) estão mais rodadas e compridas ? a maxi novamente está com tudo. Ah, nunca se esqueça de um bom babado pra animar a festa. Agora, se você tem cerca de R$ 6 mil para desembolsar, agasalhe-se com um cashmere com estampa de joaninha da grife francesa Lucien Pellat-Finnet, exposto no espaço da loja conceito Clube Chocolate. E se eu ouvir ou ler mais uma vez essa história de ?conceito?, eu grito!O terceiro dia da SPFW começou com o mineiro Ronaldo Fraga. Menos audacioso e se levando mais a sério (cuidado, Ronaldo) ele embalou o desfile com a dor de cotovelo de Lupcínio Rodrigues cantada pelo monumento Jamelão. E seu luxo (falsos brilhantes, como pedem os bolerões da trilha sonora) é posado e um tanto fake. O barroco Lino Villaventura veio menos espetaculoso, em preto e vermelho. O último vestido a entrar na passarela era primoroso e resume o estilo de Lino em sua melhor forma. Caio Gobbi, sempre jovem e baladeiro, é ótimo nos fogos de artifício mas continua em busca do hype absoluto e esquece de exercitar o talento desencanado que mostrava em seus tempos alternativos. Nós fashionistas, estávamos apreensivos com a apresentação da Cavalera. Afinal, com a saída da estilista Taís Losso ? agora na Zapping ? todo mundo queria saber como fica o lance bem humorado e subversivo da marca. Quando a luz acendeu e revelou o cenário elaborado ? assinado por Marcelo Rosembaun ? pudemos confirmar que a Cavalera continua apostando no alto kitsch. E aí entraram um maiô corset estampado de imagens de máquina de pinball, uma camiseta com estampa em relevo de um PF e outra com a caricatura da Hebe com a legenda ?Gracinha?.Ufa, respiramos aliviados. Cavalera conserva a auto ironia sobre breguice nacional. Sob o espírito rock-and-roll, escalou o centenário Sergei (sim, ele parece ter essa idade, com aquela estampa de Mick Jagger ainda mais maracujá de gaveta) usando uma camiseta grafitada ?Eu comi a Janis Joplin?. Depois ainda teve Elke ?ela está descontrolada? Maravilha e ?titia? Monique Evans, num vestido que parecia ter sido costurado com ela dentro. Os jeans são ótimos em seu délavé sujo. E as estampas de oncinha deliciosamente Fiorucci (se você tem menos de quarenta anos, acione o Google, já!). Na trilha sonora, Gisele, a Madonna capixaba, em sua impagável versão de Como uma Virgem, e um coral de jovens, ao vivo, cantando o Rei Roberto Carlos (Eu Sou Terrível) e Golden Boys (Há um Alguém na Multidão). Mais uma vez a etiqueta do Turco Loco não decepcionou com seu juventudismo incandescente. Porém, pergunta que não quer calar: precisava um time de estilistas para segurar a peteca que Taís Losso jogava sozinha? Na passarela masculina da Fórum, rapazes urbanos colocam o pé na estrada. Definitivamente não é o homem que vai fazer par com aquela mulher ?rrrrrica? da coleção feminina. Mas ele é bacana mesmo assim. Usa preto e não tem medo da cor, como no casaco de camurça mel. Aliás, os casacos são um capítulo à parte: em azul degradê, em lã espinha de peixe e um delicioso mantô marrom caramelo. As calças são sequinhas e o terno final, de veludo, é objeto de desejo. Mandou bem, seu Tufi Duek. No encerramento, a Iódice veio com seu melhor desfile. As cabeças eram anos 20, mas o astral era meio cigano, meio anos 70. As calças masculinas, um ponto forte da marca, são bem bacanas em xadrez que lembra Burberry (sim, fantasmas ingleses vão assombrar nosso inverno), em veludo com desgastes localizados ou em couro pespontado. Os vestidos são escorregadios como manda a silhueta da temporada e com estampas românticas. No final, um deslize na overdose de babados. Mas passou rapidinho e a gente pôde encerrar o dia com a sensação de que as grandes marcas da moda brasileira fizeram muito bem a lição de casa. Só uma ficou de recuperação... Mas, abafa o caso. E vamos para o fim de semana, que promete ser trepidante. Veja galeria do SPFW

Agencia Estado,

31 de janeiro de 2004 | 00h41

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