Ota

Um ano da sua morte. Conheci um Otavio Frias Filho que poucos conheceram, carinhoso, sensível, muito divertido. Baita amigo. Que sorte a minha

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2019 | 02h00

Quando eu soube que ele estava para morrer, que se despedia da família no leito, adotado pela morfina, rodei em torno do hospital, Sírio-Libanês, parei no bar que frequentávamos. Bebia, chorava, olhava o vazio, lembrando. 

Quarta-feira, 21 de agosto. Um ano da sua morte. Tentarei escrever sobre uma das pessoas mais fascinantes que já conheci. Amigo que faz uma falta danada. Durante meses, a simples menção da sua morte me induzia ao choro. Dei vexame. No velório, abraçava a viúva, Fernanda, e ia ao pranto. 

Curioso eu usar “morte”. Jornalistas usavam “falecimento”. Ele detestava. Detestava rodeios, imprecisões, delicadezas que não iam ao ponto ou prejudicavam a informação. “Passou dessa para melhor...” E quem disse que para aonde passou é melhor do que onde esteve até então? Existe passar para algum outro estágio? 

Por conta dele, através do inicialmente combatido Manual de Redação, passamos a usar na redação “fulano morreu”, e ponto. Concisão era seu lema. E seus textos, aulas de literatura e jornalismo. Lê-los, uma obrigação. 

Muitos diziam que era o melhor texto do jornal. Não era babação de ovo da claque de admiradores que sempre o cercava, obrigando-o por conta da timidez a se esconder numa blindagem que poucos rompiam. Era, sim, o mais exato e lúcido texto do jornalismo brasileiro.

O câncer no pâncreas se alojara na cauda. Fora extirpado. Tinha uma esperança, apesar do órgão-encruzilhada. Apareceram nódulos no fígado. Seria a próxima batalha. Entre nós, ceticismo. O mais esperançoso: ele. Que nos passava rotineiramente seu relatório médico e procedimentos com naturalidade.

Deu uma mágica festa no seu aniversário, 7 de junho. Nos recebia na porta. Nos indicava comida. Nos servia. Na gentileza que era sua marca.

Partiria em dias para um tratamento experimental nos Estados Unidos. Andava eufórico. A proximidade da morte deve causar uma descarga de alegria. Talvez o corpo utilize sua poderosa arma química de hormônios para sobreviver, função um da Humanidade, segundo darwinistas. Éramos darwinistas. Ou, já pensando na nossa memória, queria nos deixar uma imagem positiva, vibrante, exaltada.

Quem mais conversou? Ele. Quem mais riu? Ele. Quem discotecou? Ele. Quem mais dançou? Ele. Até amanhecer. Colocou Modern Love, de Bowie. E cantou: “I know when to go out, and when to stay in” (Sei bem quando tenho que ir e quando tenho que ficar). 

E cantou: “But things don’t really change, I’m standing in the wind, but I never wave bye-bye, but I try, I try” (As coisas nunca mudam, estou diante do vento, mas nunca digo bye-bye, mas eu tento, tento). Mandava um recado. Repetia: “I tried and I tried hard”. Despedia-se sem autopiedade.

Otavio era festeiro. Era o último a sair. Não sei como conseguia dirigir um jornal, almoçar com autoridades, ler todos os livros, assistir a todas as peças e rodar as noites em busca de festas. Muitas vezes, ele vinha com a roupa de trabalho, um terno simples. Sempre eu arrancava as bics ou futuras presas na camisa. Aqui, não, Ota. 

Por vezes, fazia perguntas inusitadas: “Qual imperador romano você gostaria de ser?”. Eu respondia de bate-pronto Marco Aurélio, o fiel, passional e hedonista general. Ele preferia a estabilidade política e racionalidade de Adriano, o imperador bom, construtor e admirador de Atenas.

Surpresa, jogava futebol muito bem. Flagrante que testemunhei no campinho na casa da irmã, em que bateu bola com a sobrinhada. Bom de prosa, bom de boca, bom de bola. Repetia jargões técnicos de futebol que decorava. Era um piadista. 

Tive um gato mirrado, melancólico, reclamão. Para sacaneá-lo, chamei de Otavio. O verdadeiro quis conhecer seu homônimo. E conheceu, num jantar em que fez questão de fazer o café. Sempre perguntava do Otavio felino. Nunca contei que se espatifou do décimo andar. 

Alguma coisa aconteceu na cerimônia do meu segundo casamento, que rolou de dia, no topo de um prédio do João Artacho. Ficamos na varanda bebendo, rindo, papeando, fumando. Horas. Até nos arrancarem de lá. Nos puxarem para dançar. Ele dançou descalço. Fui para a lua de mel, ele para outra festa. Que pique...

Fomos contaminados pelo germe da dramaturgia com uísque escocês. Tivemos filhos velhos. “Paivôs”, como dizem. Por sinal, ele me fez a cabeça para tê-los.

Tínhamos muitas coisas em comum, além da boemia: um passado ligado ao movimento contra a ditadura, um certo descrédito em relação a extremismos e fanatismos ideológicos, respeito à pluralidade, apesar de ter levado a esquerda estudantil, especialmente a Libelu (tendência trotskista), não apenas para trabalhar com ele, mas ocupar cargos de chefia.

Somos da geração influenciada pelo existencialismo, niilismo e Monty Python, exalávamos ateísmo, amor pela filosofia, éramos pós-modernistas. Curiosamente, enquanto eu tinha uma vida mais regrada, ele era adepto da porta aberta a novas experiências, fonte da sua maior obra, Queda Livre.

Porém, tínhamos diferenças. Minha informalidade destoava da sua formalidade. Sou da escola Antunes Filho. Ele era pró-Zé Celso e Gerald. Sou um autor realista, que busca respostas em temas contemporâneos com discurso direto. No teatro, ele vai pelo simbólico, um expressionista. 

O teatro nos aproximou. Nos conhecemos na minha primeira peça, 525 Linhas, que ele jurou que gostou. Ia às minhas peças, lançamentos, festas. Fez questão de escrever a resenha do meu livro Não És Tu, Brasil

Éramos ambos filhos de pais carismáticos, cujos nomes estavam nos nossos. Mas sou mais dionisíaco, ele era apolíneo. A obsessão dele pelo combate ao erro e pela padronização de estilo tiravam um pouco o charme do jornalismo. Falta o romantismo e a loucura das redações do passado. Falta paixão. Sobram burocratas do texto, amarras, regras. Pensando bem, quer-se precisão, não improviso.

É preciso assumir os erros e ouvir o outro lado, uma chatice. É seu legado.

Tê-lo como amigo e conselheiro me fez bem. Conheci um Otavio Frias Filho que poucos conheceram, carinhoso, sensível, muito divertido. Baita amigo. Que sorte a minha. 

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