Osesp enfrenta raridade de Claude Debussy

Quem brilhou foi a soprano finlandesa Anu Komsi, excepcional no andrógino papel de São Sebastião

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2010 | 00h00

O maestro e compositor suíço Heinz Holliger. Também é o maior oboísta de nosso tempo      

 

 Nem tudo é o que parece. O concerto da semana passada da Osesp, na Sala São Paulo, mostrou que não se deve alimentar qualquer tipo de expectativa prévia em relação à música. Talvez nessa imprevisibilidade resida seu maior mistério ? e poder de sedução. No pódio, um dos mais importantes músicos da atualidade: o suíço Heinz Holliger, que completa 71 anos no próximo dia 21, não tem concorrência no posto de maior oboísta de seu tempo; é também respeitado maestro, que grava contemporâneos como Elliott Carter, Zimmerman, Berio e Henze, e promove revelações, como as audições mundiais de obras do francês Charles Koechlin. Ou então contempla-o de modo radical, como no recente CD Romancendres, ECM, 2009, onde alterna composições suas com as de Clara Schumann. Como compositor, é um dos mais expressivos representantes da "neue musik" alemã.

A noite conjugava obras do maestro com uma raridade de Claude Debussy, O Martírio de São Sebastião, música incidental sobre versos do italiano Gabriele d"Annunzio. Pois a música de Holliger não se parecia em quase nada com o Holliger acima descrito; e Debussy também não se parecia com Debussy.

Em Ardeur Noire (d"après Debussy), de 2008, Holliger abraça decidido o vocabulário debussysta. Esquece suas asperezas atonais. A curta peça de 7 minutos, de sonoridades redondas, incluiu o coro da Osesp nos bastidores. E aí deu-se um imbróglio: o monitor de TV pifou quando o maestro dava a entrada para os cantores. Como eles não entraram, Holliger parou e retirou-se resmungando. Na segunda vez, correu bem. A obra seguinte do suíço, escrita nos anos 50, é um belo ciclo de seis canções sobre poemas de Christian Morgenstern, que soa como refinada reciclagem estilística de Debussy-Berg. Encantada com aquelas sonoridades tão redondas, interpretadas de modo excepcional pela soprano finlandesa Anu Komsi, a plateia perguntava-se sobre os versos, cuja tradução não consta do livrete dos programas do mês. Pelo texto, sabia-se só que giram em torno da noite. Na volta do intervalo, subiu um telão para projeção de todos os versos ? e eles eram cerca de 200 ? da peça de Debussy. No programa impresso, os versos em francês e português. Se não houve tempo para imprimir a tradução, não custava ao menos projetá-la no telão, já que houve acesso às partituras dias antes?

Anu Komsi brilhou no andrógino papel de Sebastião. Dona de bela voz, foi um dos pontos altos, assim como o coro da Osesp, de uma obra que ainda se arrasta, mesmo depois de cortada em 95% da duração. O libreto de D"Annunzio é ridículo, desconjuntado ? tudo o que o autor de Pélleas sempre odiou. Amarga ironia, que leva um criador desse porte a um topa-tudo-por-dinheiro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.