Osesp em uma noite eletrizante

Ficou provado: os músicos adoram ser regidos por Roberto Minczuk, e a plateia agradece

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

Estamos (mal) acostumados a considerar que beleza e música contemporânea não se bicam. É uma das sequelas do pensamento das vanguardas artísticas da primeira metade do século 20: "A música não deve enfeitar", dizia Arnold Schoenberg, "mas ser verdadeira."

A arte das vanguardas, acrescenta o escritor Umberto Eco, recusa-se a colocar o problema da beleza: "A arte deseja ensinar a interpretar o mundo com olhos diversos." E completa que "o que será apreciado amanhã como grande arte poderá parecer desagradável hoje; o gosto está sempre atrasado em relação ao aparecimento do novo".

E quando uma obra nova exala beleza, é entendida por todos e agrada já em sua primeira audição? Não teria direito de cidadania contemporânea? Isso aconteceu anteontem, na estreia mundial do Concerto para Violino e Orquestra, que a Osesp encomendou a Ronaldo Miranda para comemorar os 20 anos de Cláudio Cruz como spalla da orquestra.

E a resposta é: precisamos nos livrar da miopia do pensamento único das vanguardas. Numa era em que você tem a história da música inteira em seu iPod, todas as músicas são contemporâneas. Qual critério sobraria? Possivelmente, o da qualidade de invenção. E aqui Miranda demonstra total domínio de seu metiê, numa obra tonal até a medula.

Foram pouco mais de 20 minutos maravilhosos, durante os quais o impecável violino de Cruz terçava lanças ora com uma tapeçaria de percussão, rica porém delicada; ora com as demais cordas e madeiras, no Prólogo e no Discurso, os dois primeiros movimentos.

A liga dos três movimentos iniciais é um intenso lirismo, que alcança o clímax no terceiro, uma melancólica "Reflexão". O "Epílogo" final soa desgarrado dos demais, talvez por abraçar a canção popular Estrela do Mar para tecer uma série de variações e soar nacionalista como Mário de Andrade queria.

Justo tributo às duas décadas de Cláudio Cruz como spalla (a partir desta segunda-feira, a Osesp, num gesto antenado, disponibiliza, para download gratuito, duas sensacionais performances de Cruz nos concertos de Max Bruch e Tchaikovsky, em concertos de 2008 com Neschling). Cláudio Cruz é de fato notável violinista; não precisaria ter jurado diante do público que sempre votou em Fernando Henrique Cardoso, o presidente da Fundação Osesp ali presente.

Crias de Eleazar. Cláudio, como aliás o maestro convidado Roberto Minczuk, que voltou a reger a Osesp após cinco anos de afastamento, são crias do maestro Eleazar de Carvalho (o primeiro foi trazido dos EUA aos 23 anos para ser spalla em 1990; o segundo, ainda adolescente, obteve bolsa na Juilliard School de Nova York por sua indicação).

Ambos criaram um evento eletrizante, extraordinário. O retorno de Minczuk foi freneticamente festejado pela plateia mesmo antes de ele reger o primeiro compasso. Afinal, ele teria sido o sucessor natural de Neschling.

Músicos e maestro integraram-se de modo admirável. Os temas estilhaçados passeando pelos naipes; as bruscas intromissões de músicas populares em discursos musicais típicos da grande música; o imenso destaque das sete trompas (aliás, irretocáveis); as ironias e os subtextos rondando o tempo todo.

Tudo isso foi enfatizado por Minczuk. Mas o melhor foi a concepção geral que o regente imprimiu à sinfonia: um enorme arco expressivo iniciado de modo extremamente lento na abertura do primeiro movimento, levando ao pé da letra a indicação "lentamente, arrastando". A leitura da dança do segundo movimento, "poderoso, agitado", foi irresistível. Assim como o terceiro movimento, "solene e compassado, sem arrastar", que contém a paródia fúnebre com "Frère Jacques".

Flexível, livre e solta. É preciso reconhecer: os músicos adoram tocar com Roberto Minczuk, a orquestra soa flexível, livre, solta. No colossal Finale, "atormentado, agitado", Mahler nos leva pelas mãos, nervosamente, dramaticamente, a ver com novos olhos um mundo belo-feio que combina as familiares marchinhas populares com as vertigens do caos, a grande música bem-comportada com o delírio. No finalzinho, rememora o início da sinfonia, misturando-o com "Esta manhã eu ia pelos campos", um dos belíssimos "Lieder eines fahrenden Gesellen". Como se houvesse salvação.

Em tempo: a intenção foi boa, mas não valeu a pena a exumação da abertura Para Um Dia de Festa, de Beethoven. Acreditem. Oito minutos de música tosca, pura bajulação para o imperador Francisco I.

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