Osesp em partes

Orquestra lança dois primeiros álbuns de música de câmara; uma herança bendita da era Neschling

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2011 | 03h06

Aos poucos, percebe-se concretamente o alcance da era Neschling na Osesp. Um planejamento tão bem feito que levou a orquestra, nos últimos dois anos, já sem ele, a conquistar inúmeros prêmios e distinções nas publicações internacionais por gravações concebidas e/ou realizadas em seu período. É um fertilíssimo baú - herança bendita do maestro que reinventou a Osesp e a elevou ao patamar que ora desfruta. Agora mesmo, a orquestra chancela seus dois primeiros lançamentos de música camerística em CDs do selo Biscoito Fino.

Num deles, o Quarteto Osesp, acompanhado pelo pianista Ricardo Castro, interpreta os quintetos para piano e cordas de Schumann e Dvorák. No outro, o spalla da orquestra e também líder do Quarteto Osesp Emmanuele Baldini interpreta três sonatas de Camargo Guarnieri, acompanhado pela pianista da casa, Dana Radu.

A bem-vinda iniciativa combina em doses equilibradas o grande repertório europeu com um notável compositor brasileiro. Alimenta-se de registros feitos entre julho de 2008 e abril de 2009 na Sala São Paulo (Neschling foi demitido em janeiro de 2009). É uma avenida que precisa ser estimulada com outros CDs.

A Osesp gravou seis sinfonias e três aberturas de Guarnieri. E agora, com três das sete sonatas para violino e piano, adentra na criação mas íntima do compositor. Guarnieri estudou violino desde menino, e talvez seja este o motivo de sua grande produção para o instrumento: além das sonatas, uma sonatina para violino e piano; e dois concertos e um choro para violino e orquestra.

Sua mais falada sonata é a segunda, de 1933, que provocou violentas críticas de Mário de Andrade por afastar-se do ideário nacionalista e flertar com dissonâncias agressivas e o atonalismo. Guarnieri abandonou o gênero por 17 anos e só retornou a ele em 1950, no meio do tiroteio provocado por sua Carta Aberta contra as vanguardas capitaneadas por Hans-Joachim Koellreutter.

A quarta sonata, que abre esta excelente gravação onde brilham os talentos e a perfeita integração entre o violino de Baldini e o piano de Dana, é uma de suas obras camerísticas mais conhecidas. Composta em 1956, afasta-se das inevitáveis síncopes nacionalistas nos dois primeiros movimentos mas mergulha inteira num samba no terceiro movimento, um Allegro appassionato.

Com a quinta e a sexta, de 1961-63, elas compõem um grupo de obras que exibe escrita harmônica mais áspera, mais sólida em avanços estruturais e demonstra compromisso menor com demonstrações de brasilidade explícita. Além disso, o domínio de escrita é fabuloso, confirmando que, para além das polêmicas inúteis, Guarnieri foi compositor de domínio técnico composicional indiscutível. E, ainda por cima, moderno - coisa que a vanguarda não soube enxergar naquele momento.

O registro dos quintetos para piano e cordas de Schumann e Dvorák é importante porque dá chance a músicos brasileiros de gravar as obras do repertório internacional. São eles, neste CD, os dois spallas da Osesp - Baldini e Cláudio Cruz, este empunhando a viola -, e o violinista David Graton, além o alemão Johannes Gramsch, spalla dos violoncelos.

Para o ótimo pianista baiano Ricardo Castro, a iniciativa representa oportunidade de realizar, em seu país, uma gravação camerística de nível internacional. Ao menos no quinteto de Schumann, Castro comanda praticamente um concerto de câmara, tamanho o predomínio do seu instrumento. O Allegro inicial começa com um tema imperial e brilhante e continua no vasto desenvolvimento em estilo concertante - um momento particularmente bem-sucedido desta gravação, com Castro alçando-se acima das cordas, sem eclipsá-las, como pianistas incautos fazem. Um bom exemplo desta integração perfeita sente-se no vertiginoso scherzo molto vivace.

O quinteto de Dvorák inverte a relação. Desta vez, violino e viola mantêm as rédeas. São entusiasmantes as leituras de duas danças folclóricas checas contrabandeadas pelo compositor no quinteto: uma melancólica dumka no Andante e uma vibrante furiant no scherzo, também molto vivace. Ambas, como aliás muitas do quinteto de Schumann, com melodias memoráveis. Há centenas de ótimas gravações destes quintetos no catálogo internacional. Mas esta nada fica a dever às mais incensadas.

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