Osesp: bom indício de que grandes feitos estão a caminho

Crítica: João Luiz Sampaio / Londres

O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2012 | 03h08

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

Localizada no condado de Suffolk, na região sudeste da Inglaterra, a cidade de Aldeburgh se estende por não mais do que alguns quarteirões na costa do Mar do Norte. O último censo fala em 2.793 habitantes. "Mas muita gente chega sábado, é o começo da semana de Carnaval", diz uma jovem estudante, que trabalha meio período em um dos restaurantes da orla, que anuncia o "melhor fish & chips de toda a Inglaterra."

A cidade só entrou no mapa da música inglesa por conta de um cidadão ilustre. Ainda que nascido em Lowestoft, no norte, o compositor Benjamin Britten se dizia um homem da terra. Passava longas temporadas na cidade com seu parceiro, o tenor Peter Pears. E foi daqui que tirou a inspiração para compor Peter Grimes, sua principal ópera, história trágica sobre culpa e morte inspirada no poema The Borough, de George Crabbe, autor do século 17, este sim nascido em Aldeburgh.

O legado principal de Britten à terra - além de uma escultura em sua homenagem, o Scallop, que, de tempos em tempos, os moradores tentam retirar da praia, alegando que ela prejudica a grandiosidade da paisagem natural - é um festival anual de música, o Aldeburgh Music Festival. Criado nos em 1948, ele ocupou diversos palcos - igrejas, museus, hotéis - da cidade até que o Snape Maltings Concert Hall foi construído, em 1967, em uma antiga fazenda da região.

Foi nele que, na noite de quinta-feira, a Osesp fez o segundo concerto de sua turnê europeia. A apresentação começou com a Abertura Festiva, de Camargo Guarnieri, e, na sequência, Antonio Meneses subiu ao palco para o Concerto para Violoncelo de Dvorak. Em uma sala que favorece o som da orquestra em detrimento do solista, pode ser um problema encontrar o balanço sonoro ideal, especialmente em um concerto dedicado à sonoridade mais gentil do violoncelo. Não o foi, porém, porque Meneses fez da obra de Dvorak um embate enérgico entre força e delicadeza, com uma qualidade na projeção que o fez ser ouvido sem dificuldades e, ao mesmo tempo, atento à sutileza de passagens mais introspectivas, em que sua musicalidade na construção das frases se impõe.

Marin Alsop é conhecida pelo que os britânicos chamam de "no nonsense approach", ou seja, a preocupação em limpar a música de todo tipo de exagero na interpretação. É a marca registrada de suas gravações de Brahms, por exemplo. E na Sinfonia n. 4 de Tchaikovsky, imbuída do opressor subtexto da luta do compositor contra a imposição feroz do destino, é uma característica mais do que bem-vinda, ainda mais nos momentos em que permite a ela - como no primeiro movimento - extrair sonoridades interessantes, em especial no tratamento das cordas (em que pesem os problemas de afinação com que os metais introduziram a fanfarra inicial). Ao longo da sinfonia, porém, a partir do scherzo, a maestrina se deixa levar pela energia que a crítica britânica identifica na Osesp - e, pela primeira vez na turnê, ela e seus músicos pareceram realmente conectados. De certa forma, o concerto de Aldeburgh foi indício de que juntos, Alsop e Osesp podem conquistar grandes feitos - mas também de que o trabalho está apenas começando.

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