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Osesp abre turnê pela Europa com mistura sonora

Grupo foi comandado, na segunda, em Paris, pela maestrina Marin Alsop, que centralizou a atenção da imprensa

Andrei Netto / Paris, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2013 | 02h14

No momento em que a regente americana Marin Alsop deixou o palco da prestigiosa Salle Pleyel, em Paris, após vários minutos de aplausos, um espectador comentou com quem o acompanhava: "Irrepreensível". Foi deixando essa impressão que a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) abriu na noite de segunda, 7, uma turnê de 15 concertos em 13 cidades da Europa. Seis anos depois do "milagre" conduzido por John Neschling, a orquestra voltou à capital francesa tendo como grandes atrações a condução de Marin Aslop - a quem o jornal Le Monde definiu como a maestra - e o virtuosismo de Nelson Freire.

O giro, que também abriu as comemorações dos 60 anos da Osesp, a serem comemorados em 2014, é o segundo da orquestra pela Europa sob a regência de Marin. O primeiro aconteceu em agosto de 2012, quando a apresentação no célebre The Proms, em Londres, marcou uma nova etapa na busca de reconhecimento internacional pelos músicos brasileiros.

A turnê que começou ontem em Paris teve Marin Alsop na regência e contou com a participação do pianista Nelson Freire. O repertório foi aquele apresentado em São Paulo na última quinta-feira, em um dos dois concertos pré-turnê: Terra Brasilis - Fantasia sobre o Hino Nacional Brasileiro, da compositora carioca Clarice Assad; Concerto nº 2 para Piano em Fá Menor, Op. 21, de Frédéric Chopin; e Sinfonia nº 1 em Ré Maior - Titã, de Gustav Mahler.

As escolhas não se deram por acaso. Com Terra Brasilis, a Osesp se manteve fiel à disposição de ressaltar sua origem brasileira. Com Mahler e Chopin, a opção foi por demonstrar ao público francês, pouco conhecedor dos grupos latinos, o virtuosismo dos músicos e da regência - uma forma de afirmar a imagem da Osesp.

"Nós queríamos mostrar a orquestra em uma peça maior, que fosse conhecida do púbico. Se fizéssemos uma grande peça contemporânea do Brasil ninguém saberia ao certo o que estamos fazendo. A Sinfonia nº 1 de Mahler é algo que só grandes orquestras tocam", explicou Marin ao Estado ontem, horas antes do concerto. "Nós executamos essas peças porque adoramos música, claro, mas creio que seja importante permitir que a orquestra seja avaliada em um certo nível e de alguma forma permitir que a orquestra avalie a si mesma."

Além de auxiliar no reconhecimento da Osesp aos olhos do público europeu, executar clássicos de mestres como Mahler e Chopin também ajuda na afirmação de uma imagem diferente do Brasil, quebrando estereótipos e indo além do imaginário de país do carnaval e do futebol. Afinal, aos olhos de Marin, o Brasil é também um país rico em expressões artísticas - embora desconhecidas do grande público na Europa e nos Estados Unidos. "Um concerto como este é símbolo de um Brasil mais sofisticado e complexo, o que ele definitivamente é, mas que o público às vezes não consegue ver."

O desafio de Marin na turnê atual lembra o de um de seus antecessores à frente da orquestra. Em 2007, quando da passagem da Osesp por Paris, o maestro carioca John Neschling tinha objetivos não muito diferentes. À época, o espetáculo que comandou no Teatro de Châtelet foi muito bem acolhido por uma crítica que ainda tinha um patamar de comparação muito baixo. Na época. o jornal Le Monde se mostrou surpreso e rasgou elogios ao maestro pelo que chamou de "milagre" de transformar uma orquestra de um país periférico, "medíocre" até os anos 1990, na "melhor falange da América Latina". Em parte, a crítica positiva se deveu à mistura entre obras de Villa-Lobos, Braga, Mignone e Guarnieri com Beethoven e Tchaikovsky.

Em 2013, a imprensa europeia não mencionou mais o "milagre" da orquestra pobre que conquista o respeito de Paris, mas tampouco falou muito sobre a Osesp. Agora a atenção foi para a regente em pessoa, que roubou um tanto a vedete. O Monde, por exemplo, lhe dedicou uma longa reportagem - intitulada Marin Alsop, a Maestra - na qual definiu a americana como "uma das raras mulheres chefes de orquestra a conduzir uma carreira internacional e a dirigir grandes orquestras".

O texto lembrou as críticas muito positivas por seu concerto na Última Noite de Proms, o espetáculo transmitido pela BBC que Marin conduziu em Londres em 7 de setembro. Para a "falange brasileira", restaram algumas linhas no final da reportagem, que anunciava o concerto de ontem, sem mencionar Nelson Freire.

Tanto melhor para o público que quase lotou à Salle Pleyel e que pode ter se surpreendido pela performance dos músicos brasileiros. Sob a batuta contagiante de Marin, eles souberam capturar a simpatia do público com a execução de Terra Brasilis, cujos tons tropicais afloraram e impregnaram a sala até a entrada arrebatadora de um aclamadíssimo Nelson Freire. E ainda restava toda a sinfonia de Mahler para que os espectadores pudessem se deixar impressionar pela forma como a regente americana parece tocar o ombro de seus músicos, orientando-os com cada um de seus movimentos impetuosos.

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