Oscar Niemeyer, 100 anos

Arquiteto brasileiro de prestígio internacional faz aniversário em plena atividade e com conjunto de 500 obras

Jotabê Medeiros,

14 de dezembro de 2007 | 20h41

São 100 anos de vida e 70 anos de arquitetura. A prodigalidade de sua obra e o reconhecimento internacional dela seriam um cartão de visitas mais que suficiente: produziu cerca de 500 projetos em 4 continentes, e existem mais de 250 livros sobre sua obra em turco, libanês, português, alemão, holandês, inglês, japonês, francês. Em 1988, ganhou o prêmio máximo da arquitetura mundial, o Pritzker.  Veja também: Brasília, uma fantasia carnavalesca de Niemeyer Mas qual será a obra de Niemeyer preferida pelos brasileiros? A Catedral de Brasília foi eleita pelos internautas, em enquete promovida pelo portal estadao.com.br, com 827 dos votos (24%) . Em segundo lugar ficou o museu de Arte Contemporânea de Niterói, com 524 votos (16%) e em terceiro, o Edifício Copan, em São Paulo, que recebeu 404 votos (12%). A enquete ficou no ar de terça a quinta-feira, 13. O quarto lugar ficou com o Conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, que recebeu 334 votos (9,8%) e o quinto, o Congresso Nacional, com 288 votos (8,4%). Idéias firmes Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares Filho tem sido um moto-contínuo, sempre buscando a surpresa, o arrebatamento. Suas idéias são tão firmes e inquebrantáveis quanto seu espírito, que completa um século intacto, resoluto, inquieto. Aos que o procuram, instalado em seu escritório em Copacabana, ele repete a mesma frase como um mantra: "A arquitetura não é importante." Seu maior crítico é ele mesmo. Quando lhe perguntam se, caso pudesse voltar atrás no tempo, faria algo diferente do que fez, ele diz: "Muitas coisas. É tolice dizer que as coisas são imutáveis. Tudo pode ser mudado. Só aquilo no qual acredito e certas convicções permanecem as mesmas." Século do concreto O século de Niemeyer é o século do concreto armado, da arquitetura escultórica, arredondada, poética, sugerindo impossibilidade, delírio, mas sempre se confirmando. Lucio Costa costumava compará-lo ao gênio barroco do Aleijadinho. "Antes mesmo de ser arquiteto, já pensava em talhar esculturas no concreto armado", confidenciou Niemeyer. "Sempre me senti atraído, desde jovem, pelas esculturas gregas e egípcias, a Vitória de Samotrácia; gosto das obras de Henri Moore e Heepworth, da pureza de Brancusi, das belas mulheres de Despiau e de Maillol, das figuras esguias de Giacometti." Em 1938 e 1939, de novo em parceria com Lucio Costa, projetou o Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York. No início da década de 1940, o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, que considera sua obra-chave. "Pampulha foi o início de nossa capital. A mesma correria, o mesmo entusiasmo." Entre 1945 e 1955, viveu um período de afirmação de seus princípios arquitetônicos, refletidos em obras como o projeto do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, em São José dos Campos (SP), da Fábrica Duchen (1950-1951), dos pavilhões do Ibirapuera (1951-1955). Em 1955, participou da reconstrução de Berlim, destruída durante a 2ª Guerra Mundial, projetando um prédio de apartamentos para o bairro de Hansa. Em 1956, foi nomeado pelo presidente Juscelino Kubitschek diretor do Departamento de Arquitetura da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), empresa encarregada da construção de Brasília. Trabalhou com Lucio Costa, responsável pelo plano piloto da cidade, como numa simbiose. Nuvens de Brasília "Sempre que viajava de carro para Brasília, minha distração era olhar para as nuvens do céu. Quantas coisas inesperadas elas sugerem! Às vezes são catedrais enormes e misteriosas, as catedrais de Exupéry com certeza; outras, guerreiros terríveis, carros romanos a cavalgarem pelos ares; outras ainda, monstros desconhecidos a correrem pelos ventos em louca disparada e, mais freqüentemente, lindas e vaporosas mulheres recostadas nas nuvens, a sorrirem para mim dos espaços infinitos." Após Brasília, Niemeyer fez vários trabalhos no exterior, no Líbano, Portugal, França, Itália, Inglaterra e Argélia. O golpe militar de 1964 suspendeu a publicação da revista Módulo, que fundara em 1955. Em 1967, exilou-se em Paris, onde projetou a sede do Partido Comunista Francês (1971). Na volta ao Brasil, foi escolhido para projetar o Sambódromo e os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), no Rio, durante a gestão Brizola (1983- 1987). Seus trabalhos recentes mais significativos foram o Memorial (1987) e o Parlamento da América Latina (1991), em São Paulo, e o MAC de Niterói (1991), no Rio. O arquiteto Luiz Fernando de Almeida, presidente do Iphan, que coordenou na semana passada o tombamento de 24 obras de Niemeyer, defende que toda a criação do artista erigida no Brasil seja protegida. "Embora aparentemente sofisticada, sua arquitetura é de fácil apreensão, como tudo o que é clássico e belo. Alguns ícones de sua produção, como o Congresso, as colunas do Alvorada ou a Catedral de Brasília, são de imediato, em qualquer lugar do mundo, identificadas com a modernidade, com o novo, com o Brasil." Comunista avesso ao glamour Niemeyer, avesso ao glamour e às elaborações demasiado teóricas, assiste impávido à própria entronização. Todos que tiveram a honra de ser seu interlocutor em anos recentes conhecem seu ritual. Em meio a frases sempre muito precisas, articuladas, o arquiteto pára, pede uma pausa e saca uma de suas cigarrilhas dinamarquesas Davidoff. A seguir, traga lentamente e constrói uma cortina de fumaça de formas esvoaçantes na frente do rosto, e seus olhos se iluminam. É até hoje membro do Partido Comunista Brasileiro, tendo aderido às idéias socialistas já no início de sua carreira. Quando talvez esperassem que Niemeyer se tornasse um ancião dócil, contemplativo, ele voltou a surpreender: em novembro do ano passado, aos 98 anos, casou-se com sua secretária, Vera Lucia Cabreira, de 60 anos. O arquiteto publicou livros de ensaios, como Minha experiência em Brasília (1961), editado em Moscou, Roma e Paris; Oscar Niemeyer (1986); Lições de arquitetura (1993); e a As Curvas do Tempo (memórias, Rio, 1998). Mas evitou firmar dogmas. "Compreendo a crítica de arte, muitas vezes justa e honesta, mas sou de opinião que o arquiteto deve conduzir seu trabalho de acordo com as próprias tendências e possibilidades, aceitando-a sem revolta ou submissão, sabendo-a não raro justa e construtiva, mas sempre sujeita a uma comprovação que somente o tempo pode estabelecer", diz ele. "Não acredito numa arquitetura ideal, insubstituível, somente em boa e má arquitetura. Gosto de Le Corbusier como gosto de Mies, de Picasso como de Matisse, de Machado como de Eça."

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