Oscar de estrelas, também nas canções

U2, Karen O, Pharrell Willliams e vencedores do Tony estão na disputa

Melena Ryzik, The New York Times/O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2014 | 02h14

A história de Frozen, o blockbuster da Disney, não se centrava originalmente nas duas irmãs princesas. Inspirado livremente no conto de fadas A Rainha da Neve, sempre teve um par de garotas, mas foi só depois de anos de produção que, numa reunião na sede da companhia, na Califórnia, que alguém sugeriu que Elsa e Anna fossem irmãs.

De repente, "tudo fez sentido", diz Chris Buck, um dos diretores do filme. Eles passaram a ideia para a equipe da Disney rascunhar e se aprofundaram nos elementos familiares. "Tiramos muito disso", completa.

Ainda assim, a mais velha, Elsa, e Anna, não eram o tipo de irmãs simpáticas. "Naquela época, Anna era a princesa perfeitinha e Elsa era muito, muito ciumenta", conta Kristen Anderson-Lopez, uma das compositoras da trila do longa ao lado do marido, Robert Lopez. E foi quando o casal entrou na história com Let it Go, um dos concorrentes ao Oscar 2014 de canção original, que os personagens e a história central do filme se revelaram.

"Quando ouvimos a canção pela primeira vez, soube que eu tinha de reescrever o filme todo", explica Jennifer Lee, roteirista e codiretora. Frozen, que beira a marca de US$ 1 bilhão em bilheterias mundiais, é um tipo raro de sucesso, mesmo para uma marca da Disney. E Let it Go é uma das engrenagens dessa máquina. É também o centro de uma das melhores categorias do ano. Todos os indicados são superestrelas, oriundos de gêneros como o indie rock, o pop, o R&B e a Broadway.

Karen O, a frontwoman do Yeah Yeah Yeahs, está indicada por Moon Song, escrita para o filme Ela, de Spike Jonze. Pharrell Willliams criou uma obra de arte própria com o vídeo de 24 horas de duração Happy, e concorre com ela, que está em Meu Malvado Favorito 2. E o U2 ganhou seus fãs e todo um novo público com a música para o biográfico Mandela, com a canção Ordinary Love, que vão apresentar pela primeira vez ao vivo na cerimônia do próximo domingo.

Eles competem contra Let It Go, uma jornada emocional na qual a personagem se transforma de uma rainha isolada e perturbada numa fortaleza de autoaceitação. Já se tornou um fenômeno no YouTube, com uma série de covers feitos por fãs e vistos por milhões de internautas.

A canção tem origens humildes. Anderson-Lopez e Lopez já venceram o Tony pelos musicais Avenida Q e O Livro de Mórmon, e começaram a dedilhar o piano no estúdio de casa, no Brooklyn. Foi então que a sugeriram para o estúdio de animação. "Tratava-se de largar para trás o passado, e também o seu poder." O casal ouviu canções de Adele e Aimee Mann. "Compositores e cantores dolorosos, que falam de guardar segredos e de coisas das quais têm medo e vergonha", ela diz. Um dia, caminhando pelo Prospect Park, ela subiu numa mesa de piquenique imaginando a montanha de Elsa, e assim nasceu Let it Go.

Sala de jantar. Os outros indicados têm igualmente um lado intimista, e origens humildes. Karen O, que é conhecida por já ter colaborado com Jonze em anos anteriores, gravou Moon Song na sala de jantar de seu apartamento e é possível ouvir a sirene de um carro de bombeiros ao fundo da faixa. Jonze usou essa demo no trailer do filme. O sentimento e a técnica usado nos instrumentos da canção de amor com tom de canção de ninar dedilhada no ukulele, ela diz, foram inspirados na comédia The Jerk, de 1979, com Steve Martin e Bernadette Peters. Especialmente, na cena em que eles cantam Tonight You Belong to Me. "É um dos meus momentos românticos favoritos no cinema", explica a cantora.

Para Williamns, o fenômeno musical de 2013, com vitórias no Grammy graças a Get Lucky e Blurred Lines, a canção indicada envolve uma inesperada batalha de composição: ele precisou de nove tentativas para chegar à versão mais simples. "Eu estava me desafiando a ir o mais intimamente possível. Como é sentir a felicidade?"

Vocação. O U2 também enfrentou suas dificuldades devido ao peso de compor a respeito de Nelson Mandela, amigo e inspiração para a banda. "Não era só um trabalho para a gente. Era uma vocação. Tivemos que cavar muito, muito fundo", explica Bono. O grupo irlandês ficou tocado com as cartas de amor do presidente sul-africano e seus integrantes resolveram escrever sobre um amor melancólico que pode ser interpretado como uma metáfora política. "Temos altas expectativas para esta canção. Quando a compusemos, pensamos que queríamos cantar gritando do topo dos prédios."

Foi então que o homem que a inspirou morreu. "Guardamos a música. Seria indigno promovê-la naquele momento", diz. A indicação para o Oscar e a performance na cerimônia, explica Bono, "são a chance de honrar essa canção". Bono diz que não tem nenhuma ambição de colocar Ordinary Love para competir contra Let it Go. "Há grande chances de morrermos na praia", disse. O quinto finalista para a categoria, Alone Yet NotAlone, do filme de mesmo nome, foi desclassificado depois que a Academia descobriu que o músico havia quebrado as regras para promover sua indicação.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.