Oscar 2013: A gota d'água

Quando na noite deste domingo a equipe que fez o filme No baseado em minha obra El Plebiscito aparecer por um minuto nas telas dos televisores do mundo desfrutando a glória de disputar com outros quatro filmes o Oscar de melhor filme estrangeiro, eu lhe darei uma fraterna piscadela de olho de Santiago, admirado pelo ímpeto, a tenacidade e a qualidade de seu trabalho que a levou a essas alturas.

ANTONIO SKÁRMETA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2013 | 02h07

Ao mesmo tempo, percorrerei uma vez mais o caminho que teve minha obra desde que descobri o encanto de seu assunto, a derrota do ditador Pinochet, "sem ódio nem violência", até chegar ao filme com atrativo internacional que é hoje.

Quando, em 1988, Pinochet encena um plebiscito em que pede ao povo que diga SIM à sua aspiração de ser presidente do Chile por mais oito anos, dessa vez sem bombardear La Moneda, mas com um lápis e um papel, a sociedade chilena é sacudida pela dúvida.

Esse plebiscito que Pinochet convoca será uma farsa para mostrar ao mundo uma fachada democrática e que será preciso rechaçar com veemência, convocando à abstenção para não fazer o jogo do ditador - ou uma possibilidade real de vencê-lo nos seus próprios termos em se conseguindo entusiasmar as pessoas a abandonarem seu fatalismo derrotista e comparecer às urnas? A dúvida era atravessada pela brutalidade do regime de Pinochet que durante 15 anos havia torturado, feito desparecer pessoas, assassinado os valentes militantes dos partidos democráticos e seus dirigentes sindicais.

Um regime que havia semeado tormentas merecia uma tempestade que o apagasse da história para sempre. No entanto, esse projeto revolucionário estava longe das possibilidades dos patriotas chilenos.

Não havia força política unitária para levá-lo adiante e muito menos força militar significativa que pudesse augurar triunfos guerrilheiros que algum dia desembocassem em uma revolta popular de massa "à maneira árabe".

A maioria dos dirigentes democráticos chilenos se convenceu de que era preciso aceitar o desafio de Pinochet e convocar as pessoas a votar NÃO no plebiscito.

Votar não ou não votar. A propósito do filme de Pablo Larraín, alguns políticos, outrora lúcidos e hoje senis, supõem que a ideia do diretor é mostrar que foi a campanha publicitária do NÃO que derrotou Pinochet e não os 15 altivos e heroicos anos de resistência à ditadura protagonizados pelo povo, os estudantes, os sindicatos e os partidos políticos.

Na conjuntura política que o país enfrentava estava claro que os democratas íntegros votariam NÃO a Pinochet. O problema não eram os convencidos, mas os INDECISOS: aqueles que não queriam mais Pinochet, mas temiam o "comunismo".

O Chile é um país profundamente dividido e quando há uma votação, ganha quem receber um pouquinho mais do que 50% dos votos. Em 1988, como agora, 2013, o candidato que quisesse triunfar teria de somar às suas fontes de apoio sólido um pouquinho do voto não militante ou indeciso. Talvez seja diferente em Timbuctu, mas no Chile é assim. Os presidentes se elegem com aproximadamente 51% dos votos e o perdedor consegue beirar os 49%.

E é disso que trata a maravilhosa campanha publicitária do Não, ao menos em minha obra original e no meu romance O Dia em Que a Poesia Derrotou Um Ditador. Os inteligentes propagandistas do NÃO, que foram espancados e torturados pela polícia de Pinochet, leram bem a conjuntura que os indecisos colocam e falam para eles. E o fazem bem. E os seduzem. E os animam a VOTAR NÃO, contra os céticos que os chamavam a NÃO VOTAR. Esse é o conto, a campanha publicitária do NÃO não derrota Pinochet. Mas é a gota que faz o copo transbordar. As cascatas da liberdade precisaram que antes corresse muita água por baixo das pontes.

A conexão canadense. A origem do filme No, agora na forma de adivinhação para meus leitores brasileiros. Quem acertar ganha um par de skis para deslizar sobre a neve de Portillo, perto de Santiago.

Vejamos: o que têm a ver com o filme No o presidente do Pen Club Internacional, John Ralston Saul, a ex-governadora-geral do Canadá, Adrienne Clarkson, o filme americano Entre Umas e Outras (Sideways), o diretor de cinema brasileiro Fernando Meirelles, minha mulher, Nora Preperski, e Margaret Atwood? Parabéns aos vencedores. Para os que não resolveram o enigma, esta é a solução.

O imputado Skármeta será doravante chamado simplesmente de "Sk." para pô-lo no devido lugar. Sk. é admirador da literatura canadense. Por isso, quando se organiza no Chile um encontro de escritores canadenses e chilenos na Academia Diplomática, ele preside os fóruns e mesas-redondas. O atual presidente do Pen Club Internacional, John Ralston Saul, firme defensor da liberdade de expressão e protetor dos escritores encarcerados no mundo inteiro, é marido da ex-governadora-geral do Canadá, Adrienne Clarkson. Em uma de suas visitas (de SK.) a Toronto para dar uma conferência, John Ralston Saul o convida para ficar em sua casa e organiza um jantar em que estavam presentem Margaret Atwood e o produtor de cinema Niv Fichman, que tem no seu currículo o filme triunfal O Violino Vermelho e que mais adiante faria Ensaio sobre a Cegueira com o cineasta brasileiro Fernando Meirelles, e a atuação estelar de... Gael García Bernal, o mesmo herói de No.

Entre copos. Durante o jantar, o produtor Niv Fichman faz uma análise elogiosa dos vinhos canadenses e revela ser um provador quase profissional desses vinhos. Como é de praxe, elogia-se unanimemente o vinho chileno e Niv declara que apreciaria percorrer os vinhedos do Chile para provar na proximidade de sua origem os apreciados líquidos. Sk. anuncia-se que não seria nenhum sacrifício para ele acompanhá-lo nessa aventura quando viajasse ao Chile. Brinda-se profusamente por tal "ingrata" perspectiva. E, evidentemente, Sk. se imagina protagonista do filme Entre Umas e Outras.

Mas quando chega o momento e Niv transforma o projeto em realidade e vem ao Chile, Sk. está no delírio da criação do romance O Dia em Que a Poesia Derrotou Um Ditador e prefere manter-se sóbrio diante do seu computador, ou ao menos embriagado somente pela literatura. Sua mulher Nora, bela e não abstêmia, leva Niv em seu Jeep a um vinhedo do Valle Central. Durante o trajeto, Niv lhe pergunta se Sk. tem algo recente que possa ser levado ao cinema. Nora, com parcialidade marital, lhe conta que ele escreveu uma obra "maravilhosa" sobre o Plebiscito de 1988, que daria um grande filme. Niv lamenta não ler espanhol, mas Nora o consola: SK. tem a obra traduzida para o inglês e o alemão e a leu fazendo ele próprio todos os papéis em universidades e teatros americanos e europeus.

Nessa mesma noite, Niv pede a Sk. que leia-atue a obra e Sk. não só o faz, como lhe mostra uma montagem de dez minutos com subtítulos em inglês que ele mesmo editou na campanha publicitária real de 1988. Ao terminar o serão, Sk. percebe que Niv está levitando vários centímetros acima do nível do chão.

Aí o produtor canadense leva a obra a Pablo Larraín, a quem admira por filmes que viu em Cannes. Sk. não conhece Larraín pessoalmente, mas gostou muito de Tony Manero. Niv começa a pensar em uma coprodução chileno-canadense de El Plebiscito.

Até aqui a pré-história do filme No.Seguem-se debates frequentes na casa de Sk. com Niv, os irmãos Larraín, e escritores que Niv ou Larraín trazem, sobre o roteiro do filme, do qual Sk. não quer participar para lhes dar plena liberdade e permitir que se desate a energia da nova geração de cineastas. Sk. comenta, opina, critica, sugere e estimula.

O resto podem contar melhor os irmãos Larraín, o roteirista Pedro Peirano, a produtora Canana de México, Gael García Bernal, o produtor brasileiro Daniel Marc Dreifuss: a passagem triunfal de No por Cannes e tantos outros festivais, seu brilhante trabalho de promoção e os contratos com distribuidoras internacionais de grande poder, o debate no Chile sobre arte e realidade.

Só um detalhe irônico: Niv Fichman, o nobre iniciador do maravilhoso complô, afasta-se do projeto e da coprodução, pois descobre no meio do caminho que a legislação canadense não permite entrar com recursos nesse filme.

No Chile há um dito festivo e rimado para descrever essa situação: "El es el Capitán Araya: embarca a los demás y se queda en la playa". Boa sorte no domingo, rapazes. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK   ANTONIO SKÁRMETA É ESCRITOR CHILENO,  AUTOR DE,  ENTRE OUTROS,  O CARTEIRO, O POETA,  TAMBÉM ADAPTADO PARA O CINEMA

 

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