Oscar 2013: A América exposta

Neste ano, o predomínio é de obras que confrontam os EUA com a sua história política, passada ou recente

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2013 | 02h10

Costumamos chamar de história a política do passado e de política a história do presente. No entanto, tudo é história e política. E, nesse sentido, o Oscar 2013 apresenta um predomínio de obras que confrontam os EUA com sua história política, passada ou presente.

Dois deles - Lincoln e Django Livre - vão ao século 19, à escravidão e Guerra Civil, que matou 600 mil americanos, mais do que em todas as guerras que se envolveram depois. Dois outros - Argo e A Hora Mais Escura - falam da política contemporânea, a primeira tendo por tema o sequestro de cidadãos americanos na embaixada em Teerã, em 1979; o segundo, a caça a Osama Bin Laden, líder da Al-Qaeda. Ou seja, dois dos filmes são sobre a política interna americana; os outros, sobre a política externa, distinção que tem sua importância.

Em Django Livre temos uma bela fantasia histórica de Tarantino. Ele usa a história como um material plástico, que pode deformar (no bom sentido do termo) à vontade para dele tirar uma trama interessante. As homenagens aqui vão ao western spaghetti, sobretudo os de Sergio Corbucci e outras referências, entre as quais o mito nórdico de Sigfried e Brunhilde. Nem por ser lúdico, o filme deixa de ir ao fundo da questão, a abjeção que é transformar um ser humano em objeto.

A política tarantiniana é mais sensorial, enquanto, pasmem, a de Spielberg, é mais reflexiva. Lincoln fala da luta do 16.º presidente americano para aprovar a emenda à constituição que tornava ilegal a escravidão. Essa 13.ª emenda foi obtida graças a sacrifícios, retórica e cálculo político, e mesmo com uso de técnicas pouco ortodoxas como suborno e empreguismo.

Quem esperava de Spielberg uma cinebiografia melosa e hagiográfica teve motivos para se surpreender. Lincoln é visto em sua inteireza humana, cheia de caprichos e fragilidades, mas também em sua imensa obstinação; parece ter consciência perfeita da importância da aprovação da emenda e não se detém diante de nenhum obstáculo, nem de escrúpulos morais. Os fins justificam os meios, parece dizer, pensando como Maquiavel, mas sem citá-lo.

Entre os expedientes, um deles parece notável. Lincoln adia artificialmente o fim da Guerra Civil para que os Estados confederados não tenham tempo de voltar à União e embargar a emenda. Se fôssemos julgá-lo apenas sob o ponto de vista moral, sua obra de engenharia política ficaria em segundo plano. É surpreendente que tudo isto esteja no filme de Spielberg, que talvez não por acaso foi perdendo fôlego nas apostas à medida que a premiação se aproxima.

Argo parece ter esses ingredientes de cinemão que faltam a Lincoln. O filme trata da política externa americana, o resgate de seis refugiados na Embaixada do Canadá, em Teerã. Quando a embaixada americana foi invadida e seus funcionários se tornaram reféns, seis deles conseguiram escapar para a Embaixada do Canadá e de lá foram tirados em uma ação mirabolante comandada pela CIA.

Aqui, a ação política é esculpida em termos de um cinema de ação inteligente, dirigido e interpretado por Ben Affleck. Ele mesmo é Tony Mendez, agente especializado em "exfiltração", ou seja, em tirar gente de lugares difíceis. Bola uma falsa filmagem em território iraniano e faz os seis se passarem por integrantes da equipe de cinema. Apesar dos clichês do cinema suspense, Argo é bem interpretado e tem ritmo.

O outro exemplar de política externa é A Hora Mais Escura, de Kathryn Bigelow, filme envolvente, mas que tem sido atacado mesmo nos EUA. A polêmica está em mostrar cenas de tortura que teriam contribuído para encontrar o paradeiro de Bin Laden. A personagem principal é Maya (Jessica Chastain), agente jovem que, apesar da aparência frágil, é durona como a diretora e leva a peito a caça a Bin Laden. Como filme de ação e tensão, é bem competente. Mas deixa dúvidas sobre as implicações éticas. Bigelow teria defendido a tortura como forma de obter informações? Ela mesma se defendeu da acusação num artigo do Los Angeles Times. Diz, o que é verdade, que a representação de algo na tela não implica concordância do diretor. Certo, mas a maneira como o faz, talvez sim. Sua própria personagem, Maya, a princípio fica incomodada, mas, logo depois, ameaça um prisioneiro com o tratamento dispensado a eles na base americana. O ensaísta esloveno Slavoj Zizek viu o filme e entende que Bigelow "está aliada a uma normalização da tortura". Lembra que, na linguagem dos agentes, tortura vira "método intensivo de interrogatório", como se a linguagem politicamente correta limpasse o horror do ato. O filme contribuiria para rebaixar nossos padrões éticos.

De toda forma, tanto Argo como A Hora Mais Escura guardam um ponto em comum - a glorificação da CIA. Tão ironizada por ações atrapalhadas, na época da guerra ao terrorismo, a Central de Inteligência retoma seus direitos e ganha a homenagem de Hollywood. No momento em que a luta pela dominação se estende à fronteira islâmica, parece haver um subentendido de que guerra é guerra e, portanto, todos os meios são válidos. O vale-tudo internacional está inscrito no DNA dos dois filmes.

Por isso, por paradoxo, os mais maduros e éticos de todos eles são os de Tarantino e Spielberg. Um, por denunciar uma ignomínia e revelar, sem pieguice, o gosto da revanche que se esconde no oprimido. O outro, por se tratar da história e da política interna, por revelar como mesmo uma grande causa humanitária precisa ser conduzida com a inteligência estratégica de quem persegue o bem comum acima de percalços e possíveis transgressões à letra da lei. Pois nem sempre o que é legal é justo.

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