Os três Quincas

Prosa de sábado

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2010 | 00h00

Eram dois os Quincas. Na época ainda se estranhavam. A eles se juntou um terceiro Quincas, que irá aproximá-los definitivamente. Anos mais tarde, os dois primeiros Quincas se tornariam bons amigos e confrades. Um seria eleito presidente e o outro secretário-geral da Academia Brasileira de Letras. Atrasemos o relógio do tempo.

Estamos no primeiro ano da década de 1880. O mais velho dos Quincas, o Machado, era carioca e, com a esposa Carolina, vivia confortavelmente instalado num casarão do Cosme Velho. Graças aos cinco romances publicados, granjeara posição de destaque na vida literária do Rio de Janeiro. O sangue paterno lhe dava motivo para se afirmar como franco lutador a favor da causa da abolição da escravidão negra. Optara por ser cidadão cumpridor, delicado e afável. De avoengo também herdara o petit mal, que ele contrabalançava com o amor à vida.

Dez anos mais moço, Quincas Nabuco dera os primeiros passos na vida política ainda em Pernambuco. Depois de viagem pela Europa, se transferira para o Rio de Janeiro, onde seria eleito deputado federal pela província de origem. A seu favor estava a defesa em 1869 de um escravo que assassinara o senhor. Defendia com destemor a causa abolicionista e, de quebra, os indígenas do Xingu. Era também contra a mongolização do Brasil, expressão que cunhou para combater os que queriam importar mão de obra barata do Oriente. Mais esplendorosa seria a imagem pública de Joaquim Nabuco se ela recobrisse a personalidade fugidia de Joaquim Maria Machado de Assis.

Algo, no entanto, os confundia num só. Eram ambos mulherengos. Recatados e ambíguos, disfarçam o olhar pecaminoso com que festejam a beleza feminina que vem e que passa pelas ruas do centro e se exibe nos festivos salões da Corte.

Caíra doente Mariana Teixeira Leite Cintra da Silva, née Leite e Sousa, segunda esposa do terceiro Quincas, o Arsênio. Doença gravíssima, praticamente fatal. Seu marido era comendador e cônsul-geral da Bolívia, do Paraguai e da Venezuela junto à Corte. O corre-corre caseiro ecoava pelas ruas e salões aristocráticos. Bela e cativante, gentilíssima senhora, Marianinha sucedera a Laura Rodrigues no solar de Joaquim Arsênio Cintra da Silva e antecederia a Guilhermina Reis, a terceira esposa do senhor cônsul-geral.

Os dois Quincas não eram íntimos do casal Arsênio nem médicos de profissão. Ao ouvirem, no entanto, as notícias desoladoras sobre o estado de saúde de Marianinha, não conseguiam esconder dos respectivos amigos a fisionomia preocupada. E trocaram cartas entre si.

O terceiro Quincas da história, o Arsênio, conhecia de vista e de chapéu o Quincas Machado, mas não era próximo do Nabuco. A má fortuna somou a beleza digna e estonteante da moça Marianinha à doença prematura e corrosiva e aproximava os três Quincas. O encanto e a enfermidade da encantadora senhora os foram aproximando até o dia em que a morte triunfou sobre a vida no cemitério de S. João Batista. Na ocasião funesta, Quincas Machado escrevera ao Quincas Nabuco: "O que V. não sabe, mas pode imaginar, é o estado a que ficou reduzida aquela moça tão bonita. Nunca supus que a veria morrer."

Antes do dia fatídico, Quincas Nabuco não tinha contido o apreço pelo encanto da distinta e formosa senhora. Sob o pseudônimo de Freischutz, predissera o infausto acontecimento e manifestara sua desolação em comovido folhetim, publicado no Jornal do Comércio. Distante do leito de Marianinha, o Franco-atirador juntava às orações e às preces da família os próprios e ardentes votos de pesar.

No dia 21 de agosto de 1881, os leitores da coluna "À margem da corrente" foram despertados pelas palavras que traduziam a dor e a esperança do belo Quincas: "Se a vida triunfar da morte e recompuser na sua perfeição os traços que representam para nós a fisionomia a que me refiro, saiba ela que muitos que apenas a conheceram fazem os mais ardentes votos e os misturamos às orações e às preces de sua família para que lhe seja poupada essa tristeza, a tristeza de ver morrer o que é belo na mocidade, na plenitude da vida, arrebatada como os anjos da Bíblia nas vestes deslumbrantes que mal tocaram a terra."

Quincas Arsênio não tinha o Quincas Nabuco entre os próximos, por isso pediu um favor muito especial ao Machado. Queria inscrever na pedra da sepultura da Marianinha algumas das delicadas e pungentes palavras do folhetim publicado no Jornal do Comércio. Será que o Quincas Machado poderia intermediar esse desejo?

Esta crônica seria pouco machadiana se, em 1896, ao morrer Guilhermina Reis, Quincas Arsênio, nosso eterno viúvo consolável, não solicitasse novo favor ao Quincas Machado. Queria que a pedra na sepultura de Guilhermina também acolhesse as palavras que Freischutz tinha escrito 15 anos atrás para celebrar a deslumbrante beleza da moça Marianinha, ceifada precocemente pela morte. Não poderia ele intermediar o novo pedido junto ao Quincas Nabuco? Ao serem inscritas no jazigo, as palavras de 1881 embelezaram em 1896 a terceira esposa defunta.

Dessa prosa teria emergido um quarto Quincas, o Borba, cujo herdeiro foi Rubião. Diante de Sofia, que tinha "os mais belos olhos do mundo", Rubião "trazia sempre guardado, e mal guardado, certo fogo particular, que não podia extinguir".

(Fonte: Graça Aranha. Machado de Assis & Joaquim Nabuco, Correspondência. Rio de Janeiro: Topbooks, 2003)

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