Os titãs da américa

Um tijolaço de 1.231 páginas, em três volumes e pesando 1,68 kg, impõe-se ao olhar dos frequentadores de livrarias. Haja força para segurá-lo e ânimo para gramar os seus 30 capítulos. Dinheiro para adquiri-lo, nem tanto: R$ 69,90; na ponta do lápis, uma pechincha.

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

De todo modo, eu me pergunto: quem irá comprar e ler por inteiro A Revolta de Atlas?

É uma tradução. Título original: Atlas Shrugged. O titã grego condenado por Zeus a carregar o céu nas costas é uma metáfora e o verbo "to shrug" significa dar de ombros. Não se dê o trabalho de ler o romance para entender a metáfora; a vida é curta, e se encarar ficções caudalosas não o aflige, invista em Proust. Apesar de traduzido pelo sempre impecável Paulo Henriques Britto, o livro, agora com o selo da Sextante, é uma interminável chorumela, que só consegui percorrer, confesso, saltando parágrafos, muitos anos atrás, quando aqui quase que só os cinéfilos pareciam conhecer a escritora Ayn Rand, assim mesmo apenas de nome, por conta do filme Vontade Indômita (The Fountainhed), baseado em seu segundo maior sucesso literário.

Em 1987 a Expressão e Cultura editou essa mesma tradução de Atlas Shrugged, em dois volumes, com o título de Quem É John Gall?. Pouco depois a editora gaúcha Ortiz traduziu The Fountainhead, que, também com o título de A Nascente, voltaria às livrarias em 2008, reeditado pela Landscape. Se Ayn Rand estiver entrando na moda por estas bandas, culpem (ou agradeçam) o Ateneu Objetivista de Porto Alegre, que desde 1992 se dedica a divulgar entre nós o pensamento "filosófico" da escritora, cujo dogmático e intolerante Objetivismo divide os homens em duas categorias: criadores, racionais e individualistas de um lado, parasitas e irracionais do outro. Há quem diga que Rand inventou o fascismo elitista.

Trinta e oito anos depois de sua morte, Rand continua sendo um objeto de culto nos países de língua inglesa, com maior ênfase e fanatismo nos Estados Unidos, para onde emigrou aos 21 anos, fugida da União Soviética e ainda se chamando Anne Rosenbaum. Sonhava com uma carreira de atriz em Hollywood e por isso adotou um nome de guerra tão intrigante, mistura de "olho" semítico (ayin) com o "I" anglo-saxônico (escolha perfeita para quem fez do egotismo uma religião) e a máquina de escrever Remington Rand.

Marcada pela revolução bolchevique, a que assistiu da janela de um apartamento em São Petersburgo, desenvolveu um ódio visceral ao comunismo e a qualquer coisa que lhe cheirasse a socialismo, a coletivismo, sem exceção das mais inocentes manifestações de altruísmo, transformando-se na bruxa padroeira do individualismo, na mais veemente sacerdotisa do laissez-faire capitalista, cujo evangelho agora se dissemina exponencialmente por sites e newsletters na internet.

Volta e meia citada, quando não reverenciada, em filmes, telesséries e até em desenhos animados (Simpsons, South Park, Os Incríveis), com admiradores e discípulos nas mais ortodoxas paróquias do conservadorismo, Rand virou selo em 1999 e foi muito lembrada na crise financeira de dois anos atrás, pois Alan Greenspan, o timoneiro do Titanic econômico ancorado em Wall Street, sempre se orgulhou de ser o mais devoto apóstolo, além de amigo pessoal, da escritora. Rand é, ou deveria ser, a autora de cabeceira de Gordon Gekko, o paradigmático predador financeiro que acaba de voltar às telas encarnado por Michael Douglas.

Ainda que disponível em ensaios e palestras, seu legado filosófico -um coquetel de Descartes com Kant, Hegel e Nietzsche para darwinista social nenhum botar defeito - converteu mais gente através de seus dois épicos objetivistas: A Nascente (1943) e A Revolta de Atlas (1957). O arquiteto Howard Roark, o Übermensch do primeiro, e o agitador John Galt, o titã do segundo, tornaram-se referências literárias quase tão conhecidas na América quanto Huckleberry Finn, Jay Gatsby e Holden Caulfield. Sem, contudo, a mesma grandeza desses parâmetros.

Roark e Galt são duas abstrações bípedes, dois personagens de gibi para uma clientela livresca, heróis de pulp fiction engajada, devaneios de fantasia retrô. A própria bruxa admitiu: "O propósito de meus romances é a projeção de um homem ideal." A despeito de seu anticomunismo, Rand produziu uma ficção de feitio realismo socialista, um agit prop recheado de discursos exaltando o individualismo, as mentes superiores e o empreendedorismo à outrance.

A Revolta de Atlas é sua magnum opus, não apenas em número de páginas. Foi seu quarto e último romance. É uma distopia, ambientada numa América não muito distante do fim dos anos 1950: uma América estagnada pela estatização e pela hegemonia dos medíocres. Para reverter a situação, industriais, intelectuais, cientistas e outros cidadãos espiritualmente bem dotados desistem de colaborar com o estado coletivista e entram em greve incitados por John Galt, o Zaratustra de um racionalismo profundamente pragmático e misantropo. Sem os seus melhores cérebros e empresários mais audaciosos e inteligentes, o país chega à beira do abismo e da redenção.

Criticado na época por sua oca grandiloquência, pela esquerda e pela direita, A Revolta de Atlas caiu nas graças de um certo tipo de consumidor de fantasias indigestas. Promovido por celebridades da direita, vendeu em meio século cerca de 20 milhões de exemplares. Um deles já deve estar guardado para o juramento presidencial de Sarah Palin.

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