Os territórios e as fronteiras da arte

A 8ª edição da mostra foi aberta ontem, em Porto Alegre

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2011 | 00h00

PORTO ALEGRE

Curador-geral da 8.ª Bienal do Mercosul, aberta ontem, o colombiano José Roca não se sentiria à vontade se fosse convidado para o mesmo cargo na Bienal de Veneza. O motivo é simples: a tradicional mostra italiana insiste no modelo das representações nacionais, isso em pleno século de deslocamentos, migrações e mudanças geopolíticas. Roca considera não só anacrônico o modelo italiano como propõe para a oitava edição da Bienal do Mercosul uma alternativa já a partir do título, Ensaios de Geopoética, que tematiza a questão da transterritorialidade a partir de uma perspectiva artística. E o faz com extrema competência, reunindo 105 artistas oriundos de 31 países, alguns deles tão desterritorializados que nem a cartografia do Googleearth poderia apontar sua localização no mapa.

Roca, de maneira lúcida, separou em duas as estratégias para apresentar as alternativas artísticas a conceitos consagrados como nação e território. Uma é simplesmente expositiva. Independe, portanto, de uma bula conceitual para explicar as obras, porque a ênfase está nelas. A outra é ativadora, pois depende da relação entre artista e público. A principal entre as mostras, Geopoéticas, é expositiva e agrega 62 artistas de países americanos, europeus, africanos e asiáticos. Há desde obras de artistas consagrados, como o belga Francis Alÿs, até registros de experiências insólitas como a do pequeno principado de Sealand, micronação com território de 500 m², criada em 1967 por um ex-major do Exército britânico.

Na verdade, trata-se de uma antiga base militar a 11 Km da costa inglesa, uma plataforma marítima abandonada e localizada em águas internacionais. A pequena nação tem príncipe e princesa, emite passaportes e até exige registro de entrada dos visitantes. Tudo seria uma inocente brincadeira se Sealand não tivesse sido alvo de uma tentativa frustrada de invasão e sequestro do filho do major Paddy Roy Bates, fundador do liliputiano país. E, mais recentemente, de casos mais graves, como a apreensão de passaportes de Sealand em mãos de mafiosos russos e até do assassino do estilista Gianni Versace.

Além da história de Sealand, resumida num container pouco menor que o próprio país, instalado no cais do porto do Rio Guaíba, onde se realiza a mostra principal, há outros "países" não reconhecidos internacionalmente, como a Pomerânia, território entre a Alemanha e a Polônia politicamente inexistente, mas presente no vídeo da brasileira Raquel Garbelotti, que levantou o que resta da cultura pomerana no Estado do Espírito Santo. Outro exemplo extremo de afirmação de um reino que não existe é o de uma pequena ilha na Filadélfia criada por um imigrante irlandês que se autoproclamou rei, Ralston Laird, hoje ocupada por uma companhia de gás venezuelana. O artista americano Duke Riley apropriou-se de sua história e escreveu uma carta oficial ao presidente Hugo Chávez, solicitando a devolução do território ao "dono".

Esses reinos abstratos são confrontados com visões poéticas (e críticas) de conceitos de nação, bandeiras e mártires desde a entrada da mostra Geopoéticas, dominada por dois vídeos, um pequeno e outro monumental, La Liberté Raisonné (2009), dirigido pela espanhola Cristina Lucas, que anima a famosa tela de Delacroix, A Liberdade Guiando o Povo (1830). Sua conclusão, no entanto, está longe de ser heroica. Em sua alegoria da República, o povo simplesmente degola a liberdade em nome da segurança. O argentino Alberto Lastreto mostra também uma animação com um comentário impiedoso sobre a trajetória dos líderes, El Prócer (O Herói, 2008). Nela, um cavaleiro, eternizado numa estátua de bronze, salta de um pedestal a outro refazendo os movimentos das pioneiras fotografias de Muybridge.

"Lastreto é o exemplo que me vem à lembrança de imediato como um artista desterritorializado, um homem que nasceu na Argentina por casualidade, viveu em Cuba, passou um tempo em NY e se fixou no Uruguai", diz Roca. "Por ironia, os jornais uruguaios me criticaram por não ter selecionado um artista do país", comenta o curador, concluindo sua lista dos "sem-terra" da arte ao citar nomes como os da dupla Donna Conlon e Jonathan Harker. Ela nasceu nos EUA e ele, no Equador, vivendo hoje no Panamá.

Em busca da identidade local, nove artistas convidados viajaram por cidades do Rio Grande do Sul, registrando suas impressões no segmento Cadernos de Viagem. Três trabalhos destacam-se, o primeiro do gaúcho Marcos Sari, que recriou de forma pictórica, por meio do vídeo, fotografia, pintura e desenho, os pampas, na obra Rumo ao Sul (2011). O desenho delicado do jovem colombiano Mateo López recria tridimensionalmente em papel as imagens em bico de pena sobre suas impressões de viagem. Da paisagem se ocupa o mexicano Sebastian Romo, recriando de forma cenográfica o que viu na região fronteiriça entre Santana do Livramento (Brasil) e Rivera (Uruguai), ou seja, uma tentativa de fronteira imaginária numa comunidade binacional que não está nem aí para o nacionalismo.

O trabalho mais impressionante dessa história trágica de dominação do imaginário alheio por meio da força (seja ela religiosa ou política) está, porém, em outro segmento da Bienal, Além Fronteiras: são as instalações do colombiano José Alessandro Restrepo (no Museu de Arte do Rio Grande do Sul/Margs), que visitou as Missões e saiu de lá com a impressão que essas cidades utópicas criadas pelos jesuítas não estão mortas, como querem o arqueólogos.

Falando ao Estado, Restrepo disse que retrabalhou a teatralidade barroca dos religiosos, ou seja, a tentativa dos jesuítas de impressionar os nativos, pedindo emprestadas a um museu duas esculturas de santos para criar um diálogo com um enxame de abelhas e o registro de um exorcismo. A sombra dos santos projeta-se sobre essas imagens com uma força expressionista rara. Como se não bastasse, há ainda a retrospectiva do chileno Eugenio Dittborn no Espaço Cultural Santander, que reúne suas "pinturas aeropostales" repletas de imagens enviadas pelo correio desde 1983, que subvertem as fronteiras com comentários políticos desestabilizadores.

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