Os terráqueos estão chegando

Um americano com pinta de Iron Man se apresenta: "Meu nome é Ryan, tenho 30 anos. Passei a vida explorando minhas capacidades, de piloto a mergulhador socorrista. Vou continuar me testando". Ayako, uma japonesa de 39, define-se em outros termos: "Desde os 5 anos tenho curiosidade de saber o que existe além do céu. Gosto de poesia, canto, filmes de comédia". O indiano Vinod, 31, quer ir sem olhar para trás, mesmo deixando em casa mulher e a filha de um ano, "porque basicamente sou um engenheiro de tecnologia da informação". Felipe, 21, estudante de geologia na USP, adora o que faz e quer continuar explorando solos por lá. "Se tenho bom humor? Ora, sou brasileiro. See you in Mars!"

Laura Greenhalgh,

14 Setembro 2013 | 02h14

Como os leitores já devem ter percebido, especialmente a partir do otimismo do Felipe, o que junta essas pessoas é o desejo de participar do primeiro núcleo de colonizadores humanos do planeta Marte. São candidatos a uma vaga no projeto Mars One, desenvolvido por uma fundação holandesa "not for profit", mas se pintar um lucrinho, por que não? Desde abril, quando o projeto foi lançado, mais de 200 mil pessoas ao redor do mundo já se inscreveram nele. Serão selecionadas por critérios não muito claros, em que fala alto a capacidade de adaptação, evidentemente. E, a partir de 2015, depois de várias peneiras, 40 finalistas começarão um treinamento intensivo para viajar até o Planeta Vermelho em 2022, voozinho básico de sete meses de duração, non stop. Detalhe: vão viajar até Marte para nunca mais voltar. Chegou, ficou. Para sempre. Que tal?

Sem o menor pendor para passar algum verão da minha vida num planeta cuja temperatura média fica na casa dos 63 graus negativos, sinto uma curiosidade tropical de saber quem são essas pessoas que se alistam para mudar não de bairro, cidade ou país, mas de planeta. Vejamos outras autoapresentações, no site do projeto. John, um americano de 55 anos, diz que vem treinando a vida inteira para ser colonizador em Marte. E completa com o que considera ser um atributo pessoal: "Mantenho meus jardins com hidropônicos". Uau. Mayra, 26, nascida no México, acha que estaria preparada para viver em Marte porque respeita a natureza e tem boa índole: "Protejo cães de rua". Como? Tortein, 30, funcionário da Marinha norueguesa, vai logo avisando: "Vou dar 100% de mim. E não sossego enquanto não botar os pés lá".

Se você notou que tudo isso se parece com processo de seleção para um BBB da vida, eureca. Pode passar na produção da coluna (e tem?) e pegar o seu vale-marciano. O Mars One pretende ser "o maior reality show da história", segundo as peças promocionais. Mesmo contando com a consultoria de cientistas respeitáveis, entre eles um Nobel de Física, o holandês Gerardus't Hooft, o projeto põe ênfase no marketing, muito mais do que no feito. Seus organizadores querem captar a bolada de US$ 6 bilhões para custeio de todas as etapas, das missões preparatórias até o assentamento, em caráter definitivo, dos primeiros quatro colonos. Eu disse quatro. E, a cada dois anos, pretende-se mandar mais quatro. Se tudo correr bem, para montar o primeiro time do Marte Futebol Clube, calcule aí uns 6 anos. E para jogar contra quem mesmo? Pois é, amigos, já deram uma espiadinha nas imagens que o robô Curiosity, há um ano zanzando naquelas paragens, tem mandado para cá? Tédio...

A terráquea que vos fala deixa claro que jamais colocará em dúvida a importância da pesquisa espacial, nos seus diferentes campos. Mas é impossível não notar a presença no board do Mars One de Paul Römer, criador do Big Brother, o reality show que deu cria em nosso planeta (vamos exportá-lo de vez para Marte, quem sabe Plutão?), e de Steve Carsey, um dos grandes produtores de TV da Inglaterra, responsável por séries de sucesso e agora se aventurando em outras plataformas. Essa turma não veio para brincar. Já no lançamento do projeto, abrem campanha vigorosa pela internet, direcionada para "gente que pensa fora da caixa". Por trás de tudo, há um Interplanetary Media Group, ávido pelo tilintar da moeda. Como existe todo um projeto colonizador para o planeta vizinho, a cargo da companhia SpaceX, o que nos põe um pulgão atrás da orelha - será que o Eike Batista entrou nessa parada também?

Os empreendedores do Mars One dizem que os US$ 6 bilhões são apenas uma estimativa de custos e que o projeto se baseia em tecnologias já existentes, o que seria garantia de execução. Daí partem para a cotação de mercado em sites de tecnologia, avaliando desde o preço do saquinho de comida desidratada para astronautas até o de um Falcon Heavy, foguete de lançamento que transportaria a cápsula com os primeiros colonizadores.

Entre empreitadas similares- Spielberg, o cineasta, atrelou sua grife ao projeto da Nasa e a cantora Sarah Brightman planeja um show por lá -, o Mars One tem se destacado na concorrência. Seu processo de seleção, aberto na web, depende da votação dos internautas. E quando os quatro pioneiros finalmente chegarem a seu destino, câmeras indiscretas os perseguirão... por anos! (o fabricante de edredons do BBB Brasil deveria montar logo sua proposta de fornecimento).

O que me intriga, de verdade, é a quantidade de rapazes e moças na faixa dos 20 aos 35 anos, de diferentes nacionalidades e com diferentes backgrounds, dispostos a mudar de planeta. O campeão em inscrições, até o momento, é Estados Unidos (24%), seguido de Índia (10%), China (6%) e Brasil (5%) - todos, países populosos. Ok, sempre se poderá dizer que mundos desconhecidos nos fascinam. Assim como a clássica pergunta: estamos sós no Universo? Ou que ser desbravador num planeta remoto, onde a vida por lá passou, está longe de ser um convite banal.

Mas, por Júpiter, por que tanta gente na rampa de lançamento de suas vidas quer se mandar para um ermo de planícies, rios secos e imensos desfiladeiros, a 60 milhões de quilômetros da Terra, isso quando os dois planetas estão mais próximos? Por que esse grande vazio do humano seduz mais do que as camadas sedimentares da nossa civilização? Por que tantos candidatos ao Mars One acham que é melhor dar o fora daqui? Deveríamos investigar esse desencanto global com o planeta e a base de dados do Mars One está aí, oferecendo material precioso. Ainda que o projeto não decole.

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