Imagem Sérgio Augusto
Colunista
Sérgio Augusto
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Os tamancos do Foucault

Está fazendo 40 anos que Michel Foucault conheceu o Brasil. Em 1973, ele era a maior estrela da intelectualidade europeia, o pensador mais lido e citado no meio universitário. Três de seus livros (Arqueologia do Saber, Doença Mental e Psicologia, As Palavras e as Coisas) já haviam sido aqui traduzidos quando o poeta Affonso Romano de Sant'Anna, então chefe do Departamento de Letras e Artes da Pontifícia Universidade Católica do Rio, convidou-o para um pequeno ciclo de palestras. Grande ideia, trabalheira maior ainda.

SÉRGIO AUGUSTO, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2013 | 02h10

A ditadura militar, em seu nadir de insânia e ferocidade, não queria ouvir falar de Foucault, muito menos permitir que ouvíssemos de viva-voz suas ideias subversivas sobre cultura, poder, justiça, loucura e repressão. Apesar das pressões dos órgãos de segurança do governo, Sant'Anna logrou trazer o perigoso filósofo e realizar seu ciclo de palestras, façanha que outros mestres da PUC relembraram festivamente no último dia 8.

Se não me falha a memória, Foucault passou duas semanas no Rio e fez um passeio pela Belém-Brasília. Driblou a imprensa, com a desculpa de que detestava dar entrevista de cunho jornalístico ("que a todos reduz à condição de personalidade pop"), e só ajudado pelo psicanalista Chaim Samuel Katz consegui convencê-lo a abrir uma exceção para a revista Veja, com a qual colaborava na época. Exceção que por um triz não se materializou. Por culpa dos dois. Eu vacilei, ele melindrou.

Mal havíamos ocupado uma das mesinhas do bar do hotel Sol Ipanema quando cometi a imprudência de qualificá-lo com o clichê jornalístico "maître à penser". Como se fulminado por um palavrão, meu entrevistado se ergueu rápido da cadeira e ameaçou ir embora. Convencido por Katz a respeitar o combinado, Foucault sentou-se de novo, e a conversa engrenou, justamente a partir de sua ojeriza a ser tratado como pensador ou filósofo-maître à penser, nem pensar.

"O intelectual é um homem da especialidade, como um arquiteto ou um psiquiatra, e tudo começa a partir do seu fazer", explicou. Daí sua preferência pela palavra artesão. "Fabrico tamancos e encontro nisso um prazer quase erótico, porque fico contente quando alguém enfia os pés neles", metaforizou. Tive de me controlar para não soltar um "alors, un artisan à penser" ou cometer um trocadilho com sabot (tamanco, em francês) e chamá-lo de o mais influente saboteur intelectual europeu.

Em seguida, defendeu com ênfase a dessacralização dos filósofos e pôs em dúvida a indefectibilidade de suas ideias, "importantes e úteis em determinados casos, mas não infalíveis". Via a valorização da obra de Hegel, e não apenas de Hegel, pela cultura tradicional como "uma maneira de não reconhecer o processo histórico que determinou sua criação", como uma desconversa "para evitar que se falassem de outras coisas".

Dali saltamos para a natureza de seu trabalho, para o que chamava de "arqueologia do saber" (colocar as práticas, as instituições e as teorias num mesmo plano e procurar descobrir o conhecimento comum que as tornou possíveis) e outros batizaram de "psicanálise da ciência", não sem bons motivos: "Procuro encontrar na história da ciência e dos conhecimentos do ser humano algo que chamo de seu inconsciente".

Cruzamos com as sacadas proféticas de Nietzsche ("Foi o primeiro a anunciar a morte do homem divinizado, Deus encarnado na humanidade, fruto de uma teologização"), a eventual perda de atualidade e eficácia das ideias de Marx num mundo cada vez mais dominado pela tecnologia, o nascimento do homem (o homem só teria nascido no século 19, ao adquirir "conhecimento científico de si mesmo"), a polêmica com Sartre e miudezas que tais.

A momentosa polêmica deslanchou com Foucault definindo Sartre como um intelectual do século 19 que se esforçava para pensar o século 20. Sartre replicou, acusando o estruturalismo de ser a última barreira da burguesia contra o marxismo. Resumo da ópera, na versão foucaultiana "Sartre tem uma obra importante a realizar, não só literária, como filosófica e política, para dispor de tempo suficiente para ler meu livro. Por conseguinte, o que ele disse não parece muito pertinente. Além do mais, gostaria de esclarecer que pertenci ao Partido Comunista por alguns meses e naquele tempo Sartre era definido como o último trampolim do imperialismo burguês".

Ao reparo sartriano de que ele e outros filósofos desprezavam a história, reagiu altaneiro: "Os historiadores jamais fizeram esse reparo à minha obra. Os filósofos, sim, têm uma visão mitológica da história, assim como têm sua própria interpretação da biologia, da matemática. Felizmente, já faz tempo que historiadores contemporâneos, como Marc Bloch e Lucien Febvre, acabaram com o mito da história. Não desprezo a história, eu quero é matar a história que só existe para os filósofos".

Dois anos depois, bem longe do Brasil, mas no mesmo continente, Foucault foi introduzido ao LSD em Zabriskie Point (Vale da Morte, Califórnia, cenário daquela homônima chatice psicodélica dirigida por Antonioni), que considerou a melhor experiência de sua vida. Bom assunto para outra entrevista, mas, a meu ver, bem menos interessante que suas duas passagens pelo Irã depois da queda do xá Reza Pahlevi, no final daquela década. Viajou como correspondente do jornal italiano Corriere della Sera e cheguei a temer que se convertesse ao islamismo, tal o seu entusiasmo pelo aiatolá Khomeini e a "nova forma de espiritualidade política" prenunciada pela revolução iraniana.

No devido tempo, seu prognóstico foi pro brejo. Nem todos os tamancos do arqueólogo do saber eram metafóricos.

Tudo o que sabemos sobre:
Sérgio Augusto

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.