Os subterrâneos do futuro

Quando o professor Antonio Pedro Tota quer tirar sarro da cultura americana, em geral, e de mim, especificamente, durante as nossas caminhas na Avenida Sumaré, leva o assunto da conversa para os tempos áureos da Guerra Fria. Ele adora essa época, que corresponde à minha infância nos Estados Unidos e à adolescência dele em São Paulo - pelo menos como tema de estudo.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

O sarro fica por conta da reação dos americanos comuns diante da ameaça de uma guerra nuclear. A possibilidade dominava o cotidiano dos Estados Unidos. A União Soviética ameaçava o país com centenas de mísseis nucleares. Desconfiava-se que havia outros instalados em Cuba a poucos quilômetros da costa da Flórida. Sem falar das ogivas dos Estados Unidos, em número superior, segundo as contagens divulgadas ao público. A ameaça era verdadeira. Mas Tota sempre me lembra os abrigos antiatômicos vendidos por catálogo pela loja Sears. O professor identifica nesse item uma espécie de essência da cultura americana do período.

A Sears chegou a existir aqui, mas acabou fechando. É uma loja de departamentos na linha do Mappin ou as Casas Pernambucanas. No início dos anos 60, vendia muito, mas muito mesmo por reembolso postal. Seu catálogo trazia centenas de páginas e milhares de fotos de mercadorias. Definia quase todo o universo de compras da classe média americana. Era uma lista telefônica do consumo plebeu. A Sears entregava em casa de roupas infantis a brinquedos, de serras elétricas a rifles calibre 22 e cartucheiras calibre 12. Vendia também abridores de latas elétricos, calças Lee, aquelas camisas de lenhador e toda uma linha de produtos "faça você mesmo" ou, como gosta de dizer o professor, "do it yourself".

O item predileto do Tota são os abrigos antiatômicos. Chegavam em uma caixa e deveriam ser montados em um grande buraco cavado no quintal da sua casa (por você mesmo), se é que a memória não me falha. Embaixo da terra seria possível estocar comida, água e oxigênio (não me pergunte como).

Como historiador da cultura, Tota reconhece na oferta desse produto do catálogo a peculiar ingenuidade apocalíptica dos americanos durante a Guerra Fria, a fé na capacidade do indivíduo, do mercado, e do fordismo das linhas de produção.

Pensei nisso, semana passada, ao abrir a última edição da revista Wired. Para quem não a conhece, a publicação se dedica a temas do futuro. Diz qual vai ser a próxima tendência no mundo da tecnologia e comportamento. Traduz as conversas do Vale do Silício, centro de informática da Califórnia, para quem não trabalha no Google.

A penúltima Wired anunciou o fim do World Wide Web (sim, o www dos endereços eletrônicos). Trouxe em letras garrafais na capa laranja-choque a chamada: "The Web Is Dead". Uma tradução descuidada poderia dar a entender que morrera a internet. Não é isso. A reportagem explica que redes sociais (Facebook, Twitter) e aplicativos para telefones inteligentes, leitores de livros e o iPad - "tablets" - estão tomando o lugar que, até há pouco, era só da web propriamente dita (www).

No último número, a revista anuncia o começo "da era do carro elétrico". Isto parece ser uma boa notícia. E é. Ou seria, se o carro em questão, o Tesla Roadster, não custasse em torno de R$ 300 mil na porta da fábrica. Mas é um carrão (existem outros modelos e marcas, diga-se).

Mas não foi o carro elétrico que me chamou a atenção nesta edição da revista. Foi uma página (112) dedicada a... abrigos antiatômicos. Sofisticaram-se muito da minha infância para cá. Custam de US$ 200 mil a US$ 2 milhões, e mais 25% ainda para montar embaixo da terra. A boa notícia é que cabe muito mais gente. O modelo mais completo tem lugar para 2 mil pessoas, com direito a restaurantes, academias de ginástica e uma prefeitura (sobre a Câmara de Vereadores nada diz). Duram até cinco anos.

A má notícia, a meu ver, é que a fabricante, que se chama Radius, já instalou mais de mil desse abrigos ao redor do planeta! Parece que alguns compradores sabem algo que ainda não sei. Será que existem abrigos desses no Brasil? Espero que haja uma sala reservada para as aulas do professor Tota. Quero ver o que ele vai dizer disso aí.

P.S. Vou lançar em livro uma coleção das minhas crônicas no dia 6 de outubro, a partir das 19 horas, na Livraria da Vila da Fradique Coutinho, 915. Chama-se: O Jeitinho Americano: 99 Crônicas e foi publicado pela Editora Realejo. Espero ver você lá!

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.