Os sons como resposta ao exílio

Com apenas dois CDs, Lara Downes se destaca no imenso e superpovoado universo dos pianistas candidatos ao estrelato

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2013 | 02h09

A jovem pianista americana Lara Downes não tem ainda 30 anos. Mas construiu, com apenas dois CDs, uma forte personalidade musical que a destaca no imenso e superpovoado universo dos pianistas candidatos ao estrelato, unindo duas características que não costumam caminhar juntas: boas ideias de repertório com talento comprovado. Em 2011, por exemplo, lançou o original CD 13 Ways of Looking at the Goldberg: Lara toca a ária-tema e em seguida peças de compositores contemporâneos inspirados e/ou desafiados pelas Goldberg.

Mas, agora, a pianista se supera, ao lançar, pelo selo Steinway & Sons, o CD Exiles' Café. Este café dos exilados é um lugar tanto real quanto metafórico, onde viajantes do mundo inteiro se encontram para relembrar um lar longe de casa, um local em que as trajetórias convergem e as histórias de vida colidem, segundo um texto que a pianista, ativíssima na web, escreveu em seu site pessoal (laradownes.com). São 21 miniaturas de 11 compositores. Todas contam em sons as histórias de passagens, do que se deixou para trás e do que ainda se vai descobrir à frente. "Eles falam de mundos desaparecidos e vidas alteradas, da fragilidade do destino e das possibilidades de novos começos. São cartões-postais do café dos exilados."

A inspiração veio na leitura de uma frase do escritor alemão Hermann Kesten, de seu livro O Poeta no Café, de 1965: "Se alguém vive no exílio, o café torna-se ao mesmo tempo o lar familiar, o país, a igreja e o parlamento, um deserto e um lugar de peregrinação, ao mesmo tempo berço e cemitério de ilusões... no exílio, o café é o único lugar onde a vida acontece".

Como escreve a pianista, "o café é metafórico", no sentido de que "este café da minha imaginação acolhe exilados de Chopin a Kurt Weill e até Mohammed Fairouz, cobrindo música de 180 anos num mesmo teto". Nenhuma das peças oferece grandes obstáculos técnicos e por isso mesmo é difícil não cair na banalidade. Mas Lara consegue manter o interesse do começo ao fim.

Quase todas são epigramáticas, ou seja, são vinhetas, miniaturas. É curta mesmo a mazurca opus 6, n.º 1, que Chopin compôs em 1830 em Viena, vindo da Polônia. Não chega a 4 minutos.

O critério de exílio pode ser tanto físico como mental, diz Lara. Assim, alguns dos compositores presentes no CD - Chopin, Bohuslav Martinu, Erich Korngold, Kurt Weill, Bela Bartók, Darius Milhaud, Prokofiev e Rachmaninov - exilaram-se mesmo fisicamente. "Outros", diz ela, "como meus amigos nova-iorquinos Michael Sahl e Fairouz, além de William Grand Still (1895-1978), são do tipo exilados mentais".

Você ouve a sonatina pastoral de Prokofiev, as duas dumkas de Martinu, o prelúdio em ré maior de Rachmaninov e sente o travo do deslocamento, mesmo quando a música quer ser alegre. Mas, de longe, o item mais raro são quatro vinhetas de um exilado por excelência, que fez das andanças pelo mundo a matéria-prima de sua arte. São quatro prelúdios assinados por Paul Bowles, o famoso autor de O Céu Que nos Protege. Pois Bowles, pouca gente sabe, também foi crítico musical. E não só isso, também compôs - música que possui um charme romântico, soa como um Chopin se ele tivesse sido turista profissional como Bowles.

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