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Os sonhos dos pais

Ideia de que possamos controlar todas as variáveis é um delírio de Narciso e nunca de amor

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

19 de abril de 2020 | 03h00

Tomo a liberdade de narrar o que ouvi de um casal em um parque de Orlando, EUA, quando ainda era possível estar lá. Os pais da linda menina Cecília são de Sorocaba. Amorosos, anunciaram que a filha receberia uma grande surpresa em alguns dias. A criança marcou com um X no calendário cada dia que faltava para a revelação do presente. Chegou a data esperada. Os pais declaram felizes: “Filha, você vai para a Disney!”. A menina pergunta com algum desapontamento: “O que é Disney?”.

Nos parques eu vi centenas de carrinhos de bebês. Muitos gêmeos (e alguns trigêmeos) que indicavam, talvez, um recurso maior a tratamentos de fertilidade. Para quem nunca foi, existem áreas (grandes) de estacionamento de carrinhos. O que uma criança de 1 ou 2 anos aproveitaria daquele modelo de viagem? Claro, o mesmo pode ser perguntado das quase sempre assustadoras festas de um ano de vida: um bebê aterrorizado, irritado com o barulho e louco para defecar com tranquilidade. Festas de 1 ano não comemoram a vida que veio ao mundo, exibem o orgulho de quem a gerou. Talvez ocorra algo similar com grandes parques de diversão.

Meu sobrinho tem 9 anos e não conhecia Mickey, Pateta, Donald ou Pluto. Os ídolos infantis eram mais estáveis antes. Minha mãe viu, na infância, Branca de Neve no cinema. Eu vi na televisão. Hoje, Harry Potter é indicativo, em geral, de alguém entre 20 e 30 anos, que era pequeno no início deste século. O castelo da Cinderela deve ser lido de muitas formas por faixas etárias distintas. Em Frankfurt, fui ao museu sobre a obra de Hoffmann, fascinado pelo Struwwelpeter (algo como Pedro Escabelado) que minha vó Edyth contava. Hoje, os ídolos são muito geracionais.

Vi muitos adolescentes e adultos felizes na Flórida. As crianças pequenas dormiam, ou choravam. A corajosa Cecília desafiou a montanha-russa chamada Everest, com narrativas teatrais sobre o abominável homem das neves e muita velocidade. O estômago sobe ao esôfago e o esfíncter ameaça rebelião generalizada. Grita-se para interpretar alguma dignidade. A pequena enfrentou bem a provação. Teria gostado?

Permito-me ampliar o raciocínio como professor. O sonho das crianças coincide com o sonho/desejo de pais e de mestres? Em qual medida devemos transmitir nossos anseios e nossas inevitáveis frustrações? Aqui, entra a mais terrível contradição: ter filhos e educar implica uma ligação muito especial, simbiótica por vezes. Você sente a dor deles, chora e ri em uníssono e, com sorte, a recíproca é verdadeira. Porém, educar é um gesto de individuação e não de simbiose. Seus valores existem. Eles serão testados, julgados e criticados, adotados e abandonados em um sistema de autonomia dos filhos. Por doloroso que seja, a rebeldia é sintoma de humanidade.

Dolorosa e fundamental conclusão: educar é preparar para a ausência, para o afastamento, para a liberdade. Educar é amar muito, ser ao lado, ser sempre e nunca ser no lugar de quem se ama. Quando seu filho estará apto a distinguir de forma clara o bem do mal? Tal como você: nunca. De forma clara e absoluta, jamais. Morreremos errando. Nunca seremos perfeitos. Tentando ajudar, cometemos erros permanentes. Só existe uma maneira de educar: deixando agir. Eu sei: é muito angustiante supor que alguém que amamos possa deslizar na vida. Fere a alma e o narciso. Separar o que é preocupação genuína de tentativa de controle é algo tão complicado que parece exceder nosso sentido humano.

Não imagine que eu esteja recomendando algo como afastamento. Amar implica proximidade. Conselhos podem e devem ser dados. Há coisas que excedem até a ideia de liberdade, como dar uma vacina. A criança esperneia, grita e chora? Sem problema, a saúde é mais importante do que um exercício aeróbio de birra. Sempre ressaltei: regras circunscrevem o vazio, normas colocam moldura no caos. Sem elas, claras e racionais, o ser humano se perde por completo. Não estou aqui defendendo o vazio, todavia o reconhecimento de que o processo educacional é crescentemente libertador e que se ama alguém para que essa pessoa saia do ninho um dia, voe sozinha, seja feliz longe das luzes e sombras familiares. Princípios claros (e sanções plausíveis) são fundamentais. Até hoje corto as unhas regularmente, lembrando do Struwwelpeter que citei. Um homem como eu, a caminho das bodas de diamante com a vida, dialoga com o menino que ouvia o conto assustado. Valores ficam, porém a ideia de que possamos controlar todas as variáveis é um delírio de narciso e nunca de amor.

Para muitos religiosos, Deus criou o homem e não retirou dele o livre-arbítrio. O Criador permitiu que errássemos, dando-nos um privilégio único entre as criaturas. Somos livres, irremediavelmente livres, condenados à liberdade. Como ser um pai perfeito e uma mãe perfeita? Talvez, não buscando o ideal, porém o real. Acima de tudo, jamais tentando ser mais do que Deus. Com sorte, filhos e alunos sobreviverão a nós e, talvez, um dia, até desejem conhecer a Disney. Boa semana para todos.

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