"Os Solitários" atualiza o teatro da crueldade

Basta um arranhão na superfície civilizada, e pronto: lá está o bicho. Há uma era indomável pulsando sob o frágil verniz das interdições. Esse ovo de Colombo que Freud pôs em pé alimentou boa parte dos projetos artísticos renovadores do século vinte e, ao que parece, ainda tem substância nutritiva para a imaginação contemporânea. Os Solitários, espetáculo que reúne dois textos do dramaturgo norte-americano Nicky Silver, é um exemplar vigoroso dessa vertente surreal que a Sutil Companhia de Arte desencavou do Off Broadway.São duas narrativas onde a família nuclear aparece como a célula exemplar das relações humanas. Sempre de modo ilustrativo, grandiloqüente e grotesco, dispensando por completo a superfície realista. Nas duas histórias o núcleo familiar é tomado como suporte para a trama das pulsões. Aquilo que seria inconfessável, e que o drama psicológico arranca com dificuldade através de incidentes propiciatórios, as peças escancaram com despudor nas primeiras falas. Ninguém se conhece, o amor e a solidariedade são apenas pressentidos como carências e a única coisa que mantém aglomeradas as pessoas é o instinto sexual.Na primeira história (Homens Gordos de Saia) os pais nem sequer recordam o nome que deram aos filhos. Na segunda (Pterodátilos), um menino, preso com a mãe em uma ilha deserta, torna-se um macho primordial, antropófago e incestuoso. Em ambas as mais frágeis - os jovens - são objeto útil para as projeções dos adultos e a eles cabe de corporificar o instinto de morte.Uma vez que a ninguém é dado ignorar a insalubridade potencial da família, fica claro que o autor não está fazendo denúncia ou uma crítica social consistente. TennesseeWilliams e Edward Elbee já cumpriram essa função no âmbito da dramaturgia norte-americana. Nicky Silver dá isso por sabido e se ocupa da arquitetura de um jogo que equilibra o terror e a diversão.Taras, doenças e abusos tornaram-se matéria usual da representação e podem integrar-se, estilisticamente, à esfera niilista do humor negro. Uma mãe alcoólatra e erotômana, um pai ausente e filhos que reproduzem o modelo parental são, por direito de antiguidade, os "graciosos" da cena moderna.No entanto, a encenação feita pela Sutil Companhia de Teatro e dirigida por Felipe Hirsch contorna esse caminho mais fácil ao desencavar e dar força cênica ao conteúdo arquetípico dos textos. Em vez da comédia de humor negro, faz uma versão contemporânea do teatro da crueldade.São sinistras e ao mesmo tempo sedutoras as projeções associadas à narrativa como figurações do tecido vivo sob a pele. Com o mesmo peso das palavras e das situações as imagens propõem uma incisão sobre a superfície do comportamento. O que está dentro é viscoso e repulsivo ao primeiro olhar, mas, passado o primeiro impacto, exerce a atração magnética dos seres vivos, pulsantes. Entrelaçados pela gramática peculiar das associações inconscientes os signos do espetáculo impregnam as histórias, têm o mesmo peso significativo das situações dramáticas e falas das personagens.Também as interpretações são desenhadas com a dimensão amplificada das imagens do inconsciente, uma vez nenhuma das figuras se resume ao estereótipo social. Personagens da célula familiar primordial, desenhadas com gestos largos e uma tonalidade vocal de espanto e distanciamento, parecem rodeadas por um círculo de isolamento que neutraliza todo o esforço dialógico.Mesmo coisas engraçadas - trata-se de criaturas maníacas - aparecem em cena como signos da irracionalidade, revelações de uma repetição insana da atividade psíquica. A adolescente Emma, nesse contexto, pode ser interpretada pelo ator Marco Nanini porque o alvo do espetáculo é a representação de um dos componentes do jogo das relações humanas.Reuniram-se para este espetáculo duas turmas diferentes. Marieta Severo e Marco Nanini pertencem a uma geração eclética que experimenta diferentes estilos e modos de produção, enquanto o diretor e do espetáculo e os outros intérpretes fazem parte de um grupo de investigação da escrita cênica que privilegia a ambigüidade poética. São perceptíveis as diferenças de formação, mas o resultado está longe de ser desarmônico.Os dois atores mais experientes lançam mão do seu arsenal construindo personagens verossímeis e ultrapassando esse plano de composição por meio da ênfase a determinados traços. A menina interpretada por Nanini na primeira parte do espetáculo, por exemplo, dispensa a imitação da feminilidade e do infantilismo. É construídos por meio da ênfase na fragilidade, na inapetência pela vida, traços que determinam a extinção de qualquer indivíduo preso ao mecanismo da seleção natural.Do mesmo modo Marieta Severo ultrapassa as superfícies caricatas da "perua" e da "dona de casa", partindo do clichê em direção a uma desmontagem da caricatura. Convivem bem com o estilo da Sutil Companhia de Teatro, que desnaturaliza as personagens desde a primeira aparição em cena e indica, desse modo, a dissolução gradual das convenções veristas realizada gradualmente pelos dois intérpretes de outra geração. É um encontro bem sucedido entre artistas que, neste espetáculo, parecem dispostos a restaurar no palco a "força viva, idêntica à da fome" sonhada por Antonin Artaud.Os Solitários. Espetáculo dividido em duas cenas: Pterodátilos e Homens Gordos de Saia. Textos de Nicky Silver. Direção Felipe Hirsch. Duração: 2h30. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. De R$ 25,00 a R$ 45,00; e de R$ 30,00 a R$ 50,00 (sábado). Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. 5693-4000. Até 28/4.

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