"Os Sertões" tem nova edição que facilita leitura

Se alguém tentou ler Os Sertões, de Euclides da Cunha, e parou logo na primeira página ao tropeçar em termos como assoberba, visos, setentrionais e socalcos, ou resistiu um pouco mais, sem conseguir porém vencer a barreira de termos como recrestados, bátegas e subitâneo, pois continuar a leitura implicaria uma verdadeira maratona pelo dicionário, já pode voltar à obra-prima da literatura brasileira.No centenário de publicação da obra, a Ateliê Editorial, o Arquivo do Estado e a Imprensa Oficial estão lançando uma nova edição comentada pelo professor Leopoldo M. Bernucci, que dirige o Departamento de Literatura Brasileira na Universidade de Austin. Durante três anos ele preparou mais de 3 mil notas de rodapé para ajudar o leitor a enfrentar as dificuldades e descobrir as maravilhas do texto.Além disso, Bernucci, autor de A Imitação dos Sentidos, sobre Euclides, e Historia de Un Malentendido, sobre A Guerra do Fim do Mundo, de Vargas Llosa, e Os Sertões, fez uma revisão do texto usando a terceira edição, corrigida por Euclides, e o índice onomástico das pessoas e lugares. O volume traz também índice remissivo, cronologia do autor, mapas, fotografias e um estudo que Bernucci escreveu para essa edição, que sai na Coleção Clássicos Comentados, dirigida por Ivan Teixeira, tem 900 páginas e custa R$ 64.Mas o problema não é só o vocabulário. É a sua classificação da obra. Para uns, trata-se de ficção, para outros, é um ensaio, para outros ainda, as duas coisas. Para que se tenha uma idéia, basta mencionar o fato de que na ficha de catalogação da Câmara Brasileira do Livro (CBL) estampada no volume - uma edição modelar, muito bem diagramada -, a obra é classificada como "romance brasileiro", por engano, certamente.Nesta entrevista por e-mail, o professor Bernucci, que vive há 25 anos nos EUA, fala sobre o estilo euclidiano e até que ponto Os Sertões são uma obra científica e, até que ponto, uma obra de ficção.Estado - Há leitores de Os Sertões que criticam o que o livro tem de ficcional. Mas isso não era problema para o autor, que tinha consciência disso e trabalhava em função da ambigüidade. Quer dizer, não estaríamos diante de uma solução, embora muito complicada, uma proposta, e não diante de uma confusão comprometedora? Leopoldo Bernucci - A pergunta é muito apropriada para esclarecer um dado que até hoje confunde os próprios especialistas. Euclides, é verdade, defendia a idéia do consórcio entre as ciências e as artes, mais especificamente entre as ciências e a literatura. Mas daí dizer que ele - como se tem dito - concebia a sua própria obra dentro do terreno da ficção ou que esta possui "regiões" ficcionalizadas não me parece acertado.As ciências o interessavam dessa maneira porquanto possibilitavam ao poeta ou autor de ficção um certo método, um sistema que se aproximava ainda muito daquele da virada do século no qual se enquadravam os escritores naturalistas. Quer dizer, liberdade de expressão e de imaginação, mas dentro dos parâmetros impostos pelas regras narrativas da verossimilhança e pelos pressupostos deterministas.O problema da ambigüidade nele é mais complexo na minha maneira de ver. Ela estaria presente em Os Sertões não no nível da ontologia textual, ou seja de decidir se o texto é de ficção ou não, mas no nível narrativo ou da fábula. Como tal, a ambigüidade neste caso enriquece o texto porque não oferece soluções fáceis ou previstas a problemas que naturalmente são de difícil solvência. Tomem-se como exemplo a caracterização do jagunço; a descrição da paisagem; e a descrição do conceito civilização-barbárie. Estado - Até que ponto essa não seria uma questão já superada? Bernucci - A pergunta permite reformular o problema do seguinte modo: que importância teria o fato de Os Sertões ser um livro de ficção ou, digamos, de história? Eu responderia que nenhuma e que a classificação genérica é muito árida e mecânica para ajudar-nos a resolver problemas tão complexos como o da mescla de discursos. Mas dito isso, eu gostaria de esclarecer que embora algumas linguagens (uso o termo "linguagem" de forma intercambiável com o termo "discurso" e muitas vezes no singular quando quero englobar outras linguagens também) de Os Sertões nos façam aproximar das linguagens ficcionais, não estamos logicamente dentro do terreno da ficção.Este ponto é o que aborda Hayden White na sua teoria, que poderíamos grosso modo resumir desta maneira: não há nenhuma garantia de que os determinantes lingüísticos possam conferir o status de ficção ou história a um texto.Trocando em miúdos: uma mesma e única linguagem (emplotment na terminologia do crítico) poderá servir tanto para a ficção quanto para a história. Ao entrar para a ficção, ela se ficcionaliza; para a história, não. Para poder falar em ficção em Os Sertões, teríamos de aceitar a ficcionalização dos fatos narrados e da linguagem depois de aceitar que assim o quis Euclides.Isso não ocorre no caso do nosso autor. Basta ler o prefácio do livro e outros ensaios de Euclides para notarmos que ficção para ele era sinônimo de mentira ou farsa. E se formos dar um passo mais adiante, teríamos também que observar outro detalhe: quem confere o status ficcional a um livro é o seu autor e não o leitor. A percepção deste pode ser uma, mas a intencionalidade do autor é inequívoca no nosso caso. Estado - Há um ponto, na sua introdução, que me parece muito bem colocado, e teria a ver com a mistura de gêneros. Trata-se da idéia de um mar no deserto (pág. 24). Não se poderia ver nessa ´imagem´ um questionamento da insuficiência dos discursos?Bernucci - Essa passagem do livro sempre me fascinou porque vejo nela a força do Euclides artista dominando o Euclides cientista. Ele sabia, através de estudos muito específicos de geólogos da época, que a região de Canudos em épocas remotas havia sido inundada por água doce e não água salgada.Água doce porque se tratava da formação da bacia amazônica na época em que o grande rio se formava a partir do surgimento das montanhas dos Andes. Se entendo bem a sua pergunta, acho que você está falando das limitações que as diferentes modalidades discursivas possuem. Assim, Euclides estaria se movendo de um discurso para outro buscando a melhor maneira de dar conta dos objetos e realidades narrados. Estado - O que é real e ilusório nos Sertões? É possível falar em real e ilusório a esta altura? Mário de Andrade, que o sr. cita em um de seus livros, critica a estetização de Euclides. Essa crítica foi vencida pelo tempo ou ainda procede?Bernucci - É uma grande indagação que toca profundamente no problema não só da obra de Euclides como de toda Arte ou Estética. Veja bem, o problema é filosófico. O escritor argentino Jorge Luis Borges leva até as últimas conseqüências a questão das realidades possíveis ou dos mundos imaginários. O que ele acaba fazendo, num plano filosófico e através dos seus ensaios, ficção e poesia inclusive, é justamente testar a possibilidade de se eliminar a fronteira entre o real e o ilusório. Os resultados já são conhecidos de todos os seus leitores: dentro das possibilidades discursivas criadas por Borges, não é possível mais fazer a distinção a que você alude.O caso de Euclides é diferente, embora sob o ponto de vista do artista o leitor encontrará laços estéticos comuns entre este e Borges. Comecemos com Mário de Andrade. Nem Os Sertões nem essa crítica de Mário envelheceram ou se desgastaram pelo tempo. Acontece que a expectativa de Mário, como leitor sensível de Euclides, era de ler Os Sertões não como livro de ficção. Para o autor de Macunaíma, ficção significava liberdade de invenção, embelezamento ou adorno da realidade, enfim, era o "carregar nas tintas" que o historiador, para a mentalidade da época, não podia se dar ao luxo de utilizar. Ao fazê-lo, estaria correndo o risco de comprometer a verdade do seu discurso.Parece-me que a indignação de Mário tem a ver também com a ideologia do livro de Euclides que em alguns aspectos contraria a sua. Mas, no fundo, também temos de concluir dizendo que Mário possivelmente leu mal Os Sertões, não lhe dando a oportunidade de desvendar os seus segredos e mostrar as suas muitas riquezas. A atitude de Mário se explica, era um problema de escola.Imagine você - somente no plano da linguagem - o que deveria ser para um modernista ler aquele texto barroco repleto de gongorismos. Nem Graciliano Ramos, anos depois, consegue tragá-lo, eu diria pelas mesmas razões discursivas. Estado - O sr. escreveu um livro sobre A Guerra do Fim do Mundo e Os Sertões. Como se dá essa relação entre a fantasia ou delírio de Euclides e a ficção de Llosa? Qual é o significado disso tudo para os leitores? Bernucci - São dois livros totalmente diferentes unidos por dois pontos comuns: Canudos e Euclides da Cunha. A representação da Guerra de Canudos de Mário Vargas Llosa é livre, embora extraída de leituras de jornais e livros da época. Em uma palavra, essa representação é ficcional. O livro de Euclides, como já disse antes, não quer ser ficção; quer ser história, livro de ciências naturais, estudo de antropologia, etc.O significado disso para os leitores é que, não havendo a visão escrita dos vencidos, como houve muitas do lado dos vencedores, o leitor terá de tirar suas próprias deduções e proceder como os dois escritores que, por razões diferentes, tiveram de preencher as lacunas que as pesquisas dos arquivos não puderam suprir. Estado - Quando se faz um levantamento desse tipo, mergulha-se também na composição do texto. O que o sr. diria, agora, sobre o vocabulário de Euclides e seu, digamos, estilo? Bernucci - A dificuldade do livro reside em dois fatores principais: vocabulário extremamente culto, desusado, às vezes arcaico para a própria época e um estilo de linguagem que busca sempre frases de efeito e lança mão de uma estrutura sintática barroca ou retorcida. Euclides estava perfeitamente consciente de que a sua maneira de escrever oferecia obstáculos para o leitor menos culto e incauto. Mas ele mesmo se defendia dizendo que, apesar disso, não iria mudar o seu modo de escrever. Suspeito também que ele não podia escrever de outra maneira quando adotava o registro "ensaio", digamos, como é o caso de Os Sertões e dos grandes painéis narrativos que se encontram em À Margem da História.Para o leitor contemporâneo, a lição que um livro como Os Sertões pode ensinar é muito clara. Perdemos o gosto por essa beleza que é o português da época, ainda influenciado pelas dicções que vinham de Portugal tanto na fala como na escritura. Perdemos o gosto por essa maravilha que se chama correção sintática, sem a qual a língua seria um caos, e os que a esculhambam hoje em dia tacham os que a preservam, mas que também a atualizam, de puristas. É o grande livro que até hoje nos hipnotiza pelo poder encantatório de suas linguagem prenhe de aliterações. Penso que depois de Grande Sertão: Veredas bem poucos conseguiram fazer o mesmo com a língua portuguesa no Brasil. Estado - O trabalho foi, evidentemente, colossal. O sr. trabalhou com equipe, contou com uma bolsa? Bernucci - O trabalho das notas foi monstruoso. Tive momentos de querer desistir, pois não tive nem bolsa, nem assistente para isso, exceto no final - já na fase das últimas correções -, quando contratamos um bom revisor para passar o pente fino em tudo. E a ajuda de alguns colegas que fizeram leituras finais e comentaram o texto. O mais difícil foi refazer notas, muitas delas a partir de outras notas que já existiam em outras edições, se bem de forma muito precária. Explico-me, com pouca informação e datas e/ou nomes incorretos. Acudi de todos os meios: dicionários da época (alguns muito utilizados por Euclides), enciclopédias, mapas, livros de história, alguns manuscritos fragmentados de Os sertões e a caderneta de campo do autor. Elaborei até o índice onomástico e por assuntos numa semana que estive aí em São Paulo. O problema foi que, morando fora do Brasil e no Colorado, onde é difícil encontrar pessoas para esse tipo de ajuda, tive de arcar com 80% da carga de trabalho.

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