"Os Sertões" faz apelo à consciência

O Teatro Oficina faz coincidir a "encarnação teatral" da primeira parte de Os Sertões com a comemoração do centenário da publicação da obra. Em vez de sobrepor palavras sobre palavras, a encenação torna presente - e é marca do Oficina enfatizar o caráter de presentificação do teatro - as palavras de Euclides da Cunha. Leitores que "atravessam correndo ou desistem no caminho da leitura do livro" terão a oportunidade de ouvir e sentir a potência escultórica da escrita dessa primeira parte da obra. São trechos do livro, às vezes em uníssono, musicados ou assumidos por personagens singulares que amparam solidamente as camadas geológicas de significado histórico, sociológico e estético que a interpretação dos criadores do espetáculo erigiu sobre esse alicerce monumental. As atualizações e adaptações a que o grupo habitualmente submete os textos clássicos com o intuito de evidenciar possibilidades analógicas, cederem lugar, desta vez, ao resgate oral de uma escritura por natureza tão íntegra que talvez não suportasse a exploração de hiatos entre significante e significado. É uma decisão sábia porque quem não conhece o livro sairá do espetáculo seduzido pela força e pela beleza do texto.Além disso, um extraordinário esforço de transliteração dramatiza a morfologia do território abarcado pela obra, desde a forma capilar dos veios aquáticos até o relevo, a vegetação e as variações climáticas. Uma das operações fundamentais do texto, que é a de nos fazer ver, prender o leitor por meio do estímulo sensorial, é reassumida pelo espetáculo que encontra signos teatrais concisos, impactantes e sedutores em cada etapa do percurso.Quem quiser se aproximar desse espetáculo pela vereda marginal e serena da fruição passiva, terá com que se ocupar por um breve tempo. Nos seus mais de 40 anos de trabalho, esse grupo liderado por José Celso Martinez Corrêa aprendeu a dominar como nenhum outro a plasticidade do espaço teatral exterior à caixa italiana, a organizar e tornar dramáticos os materiais mais simples e a tirar partido do valor alegórico da figura humana. Tudo é bonito nessa encenação, com aquela qualidade peculiar e pungente do efeito estético arrancado, pela força da imaginação, às substâncias elementares como a água, o fogo, o espaço aéreo e a própria paisagem urbana que divisamos através das aberturas do edifício para a cidade. Nada se perde; nem o sol poente nem o céu nublado do Bexiga. O entorno faz parte de uma rigorosa logística espetacular que associa o texto centenário ao meio ambiente desse tempo e desse lugar. A ordem de grandeza que Euclides conferiu ao sertão por meio da escrita é ressignificada pela grandeza do nicho onde se encrava, fisicamente comprimido, o Teatro Oficina, mas de onde se pode entrever a vastidão da cidade.Dura pouco a placidez contemplativa. Uma vez estruturada essa representação da morfologia da cena, propondo uma relação permanente entre dentro e fora, entre o passado e o presente, a dramaturgia criada pelo diretor, se liga, também com impecável lógica, ao procedimento construtivo adotado pelo autor de Os Sertões. É no prólogo a O Homem e A Luta - tendo antes nos advertido que se trata da denúncia de um crime - que Euclides da Cunha pega pela mão o seu leitor e o instrui e seduz para enfrentar a dimensão terrível do episódio que vai reconstruir. Do mesmo modo, os intérpretes envolvem o público, amaciam o contato por meio de um convite ao relaxamento e vão exibindo um pouco dos seus instrumentos de criação. São o vocabulário e a sintaxe do teatro que se tornam instrumentos familiares por meio desse intróito: a preparação corporal, as vocalizações humanas que se tornam aos poucos simbólicas, passando a indicar os ruídos dos animais, da vegetação, da água, do dinamismo dos elementos que atuam sobre o clima. A convivência pacífica, tornada afetuosa pela presença de crianças no elenco, funciona, por assim dizer, como glossário do léxico teatral e convite para prosseguir em direção ao território inóspito do sertão e ao morticínio de Canudos.Figura sobre figura, a recepção que o espetáculo dá ao público também se ampara no significado do texto original: "Acredita-se que a região incipiente ainda está preparando-se para a vida: o líquen ainda ataca a pedra, fecundando a terra."Sobre essa suspensão de juízo contida no "acredita-se", a encenação vai sobrepondo imagens da aridez e da esterilidade violada alternadamente pela ação modulatória dos fatores externos como a chuva e o vento, pela estratégia das raízes, pelo modo como o sertanejo resiste e aprende a reconhecer e a aproveitar o que há de propício à sobrevivência. Os cantos e os momentos de confraternização do elenco com o público celebram essas vitórias esporádicas da vida sobre a morte. Depois de um desses momentos, circula entre o espaço cênico e a platéia uma cuia de chá de jurema, trânsito simbólico do projeto de imersão ritual que o Oficina retoma em todos os seus espetáculos. A violação da terra pela economia extrativista, a correspondente violação dos espaços de germinação cultural pelos macroempresários da comunicação são exemplos dos sentidos entrelaçados, anulando a seqüência cronológica e tornando presentes a denúncia desses métodos de desertificação e o apelo feito por Euclides da Cunha à consciência dos cientistas e governantes. Falando do aqui e do agora o Oficina apela à consciência de cada um de nós. A idéia de polis que se desenha ao final desse espetáculo parece não ter centro. Estamos assim preparados para o protagonismo coletivo de O Homem.

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