Os sentimentos mais profundos do homem

Em O Grande Cerimonial, o dramaturgo Fernando Arrabal propõe um jogo entre o belo e o grotesco

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2010 | 00h00

Enquanto saboreava um café com o dramaturgo espanhol Fernando Arrabal em agosto de 2009, em São Paulo, o diretor Reginaldo Nascimento pediu conselhos sobre a montagem que preparava de O Grande Cerimonial, peça ainda inédita no Brasil. "Depois de um silêncio intrigante e em um tom forte e ao mesmo tempo profundo, ele respondeu: "Solte a imaginação sem limites e sem medo, não há certo nem errado e sim o sonho"", conta o encenador. Assim, com carta branca, ele estreia hoje sua versão na Sala Experimental do Teatro Augusta.

Irônico, provocador, Arrabal (que completa 78 anos em agosto) é autor de uma obra contestadora, como revelam as peças O Arquiteto e o Imperador da Assíria (1966), Fando e Lis (1955) e Cemitério de Automóveis (1959), todas já devidamente encenadas no Brasil. "O Grande Cerimonial me atraiu por fazer parte deste universo meio pânico, meio absurdidade, este jogo infantil sem limites, este grito surrealista a ser dado", conta Nascimento. "Meu desejo de falar do amor, ou melhor, deste amor que oprime os homens, tortura e mata, me conduziu para esse cerimonial que, a meu ver, consegue colocar em cena de certa forma todas as personagens da vida do Arrabal."

De fato, há diversas semelhanças na ficção com a realidade do dramaturgo. A peça narra a história de Cavanosa (Alessandro Hernandez), um Casanova às avessas que todas as noites seduz uma mulher e a leva a seu quarto onde estabelece um cerimonial que, na verdade, não passa de um projeto. "O próprio Arrabal poderia ser o Cavanosa oprimido e torturado pela mãe, e que busca na realidade motivos e pessoas que possam compreender todo seu mundo de fantasia e pesadelo", observa o diretor.

Tal sufoco é representado pelo personagem A Mãe (Deborah Scavone) - ao deixá-la em busca da mulher ideal, representada por Lis (Amália Pereira), Cavanosa encontra-se também com O Amante (Alessandro Hanel) e com Sil, que, acredita-se, seja a mesma Lis.

Família. Nascido em Melila, no Marrocos, mas criado na Espanha, Arrabal exilou-se na França, para onde migrou quando a perseguição exercida pelo regime de Franco provocou o misterioso desaparecimento de seu pai. Até hoje, ele vive em Paris. "Arrabal será sempre atual porque fala do homem e, acima de qualquer coisa, fala dos sentimentos mais profundos e promíscuos, aqueles que não se revelam na ceia de família."

Com a liberdade de criação incentivada pelo próprio autor, Nascimento elabora um jogo entre o belo e o grotesco, a vida e a morte, o sonho e a realidade, a fantasia e os pesadelos. "É um olhar sobre o homem oprimido, esmagado sobre a dor, a violência e o amor sem limites, tudo sem clichês."

Para isso, criou uma cenografia que delimita o espaço do sonho surrealista com signos, como o carrinho de criança. Também importante são as bonecas que compõem o cenário, criadas pela artista plástica Suzy Gheler.

O GRANDE CERIMONIAL

Teatro Augusta. Sala Experimental (50 lugares). Rua Augusta, 943, telefone 3151-4141.

4ª e 5ª, 21 h.

R$ 30. Até 1/7

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