Os sentidos do movimento

Superfícies, do grupo D.A.M., investiga as reações de cada um quando os corpos se mexem

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2010 | 00h00

Faz tempo que Roberto e Gustavo Ramos se dedicam a consolidar um tipo de obra que se preocupa mais com a percepção do movimento do que com sua dinâmica. Privilegiando em seu interesse o modo como os sentidos funcionam quando o corpo se move, os dois vêm desenvolvendo uma técnica e chamam sua proposta de D.A.M. (Desenvolvimento Anímico do Movimento), nome também da companhia que formam com Catalina Cappeletti. Empregam objetos nessa exploração e, com eles, produzem peças com uma lógica própria. O seu percurso é pontuado pelo rigor e pela coerência típicas dos que se dedicam à pesquisa com a seriedade necessária.

Sua criação mais recente, Superfícies, que acaba de estrear, não foge ao padrão de tudo o que produzem: um acabamento impecável, que começa na acuidade do desempenho dos três intérpretes, e acaba no zelo louvável com a montagem da cena e do que nela apresentam.

Tudo parece nascer de uma dedicação em tempo integral, que beira a obsessão com a busca de uma perfeição que é tratada como um alvo que se move sempre para diante, uma vez que continuam a burilar, cuidar e retrabalhar constantemente os seus trabalhos.

Preto. Em Superfícies, os objetos são placas pretas, também a cor do figurino com que os três habitualmente se apresentam. Essas placas são deslizadas, jogadas, organizadas e desorganizadas em um cenário impecavelmente branco. Às vezes, isso acontece no chão, às vezes na parede, pois chão e parede vão trocando de papel ao longo das experiências que vão sendo realizadas. Pois Superfícies se dedica ao que seu nome anuncia: os três investigam o quanto de pressão é necessário para produzir movimento e qual a relação entre a pressão e o tipo de movimento que dela surge. Chão, parede, placas, corpo - tudo vira superfície a ser testada, e cada situação combinatória entre esses elementos vai revelando um tipo de movimento mais fluente ou mais fragmentado.

Plástica. Na fase em que se encontra a pesquisa, ainda ocorrem momentos em que o trio parece fascinado com o que está criando, e as descobertas vão se impondo, subjugando-os pela plasticidade das formas que vão surgindo.

Aprisionados naquele momento inicial em que cada um de nós considera muito interessantes todas as ideias que tem, sem conseguir descartar o que se faz necessário para evitar desvios ou distrações do foco principal, com toda a certeza vão caminhar para a retomada do controle das poucas cenas nas quais isso se manifesta.

Como se trata de pesquisa no sentido pleno do conceito, não há o que temer. O percurso do D.A.M. tem sido pontuado pela solidez com que persegue incansavelmente as hipóteses que inspiram cada uma de suas criações. Quem tem acompanhado o seu caminho, não duvida de que é o que vai continuar a acontecer com Superfícies.

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