Os semideuses nos quais acredito 

Com suas vozes, acordes e palavras, fazem com que a gente se sinta quase imortal

Ruth manus, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2018 | 02h00

Há tempos ando com vontade de escrever um texto sobre o quão risível eu acho a cultura do mundo corporativo, sobretudo por essa incansável tentativa de tornar executivos do alto escalão uma espécie de semideuses. Algo como se eles fossem realmente intangíveis e seus nomes devessem ser mencionados com uma reverência especial. Acho mesmo muito engraçado, sobretudo porque, num dado momento, eles até começam a acreditar que são muito mais especiais do que os mortais, espalhados pelas baias do escritório.

Mas enquanto eu estava amadurecendo essa ideia na semana passada concluí que, dentre os humanos, definitivamente não acredito na existência de nenhum tipo de divindade, em maior ou menor escala. Mas não escrevi a esse respeito por que tinha um compromisso inadiável naquela noite, pelo qual eu estava esperando havia meses. O show do Toquinho.

E foi aí que tudo aconteceu. Quando ele entrou naquele palco, segurando seu violão e vestindo uma roupa tão tranquila quanto seus olhos, sem cenário, figurino ou iluminação pirotécnica e começou a tocar Tarde em Itapoã. Alguma coisa ficou diferente na minha cabeça logo naquela primeira música. O show foi acontecendo e eu ia sendo curiosamente invadida pela sensação de estar muito longe de todo o resto do mundo. Eu estava ali.

Quando Toquinho tocou sua aquarela, caí num choro danado. Minha mãe sempre cantou aquilo pela casa. Tive vontade de dar um abraço nele e agradecer. E contar que o tema da festa de aniversário de 1 ano da minha sobrinha foi sua Aquarela. Que tinha até uma placa indicando a direção para o Havaí, Pequim e Istambul. Tive vontade de contar para ele que o tema da festa de 2 anos foi Os Três Porquinhos e que agora, que ela vai completar 3, parece que não conseguiremos fugir da Peppa Pig. Do jeito que as festas dessa criança estão decaindo, é capaz de ela pedir uma festa de 15 anos cujo tema será o governo Temer. Mas, para a sorte do Toquinho, eu não pude ir contar essas coisas relevantes.

Entre as músicas que cantava, ele ia contando histórias sobre momentos e memórias ao lado do Vinicius, do Tom Jobim e do Chico, com a mesma naturalidade com a qual eu falo sobre minhas viagens para o Guarujá com a Amanda ou sobre minhas panelas de brigadeiro com a Fê. Ele ria, nos contava como foram os bastidores das composições de músicas que fazem parte da minha vida desde que nasci – eu chego a me perguntar como o mundo poderia existir antes delas.

Canto de Ossanha, Samba pra Vinicius, Que Maravilha, Samba de Orly, Chega de Saudade. A cada música que ele tocava, para mais longe eu ia das pequenas angústias dos meus dias. O vazamento de água no quarto da miúda, o cliente do escritório que não nos paga nunca, minha dor no trapézio, as saudades da minha avó. Tudo parecia sutil, suportável e sereno. Parecia que a música e a poesia me lembravam naquela noite de terça-feira, que o universo era infinitamente maior do que as pequenas coisas às quais nos prendemos nas segundas, terças, quartas, quintas e sextas. 

E então eu entendi. Eu estava redondamente equivocada. Há, há sim alguns semideuses nos quais eu acredito piamente. Na verdade, não só acredito como a eles sou fiel e cultuo-os nas caixas de som da minha casa e nos livros espalhados pelas minhas prateleiras. Semideuses sem manto, sem terno nem gravata, sem lanças ou tridentes, sem MacBook ou smartwatch. 

Acredito, feliz e grata, em semideuses que tocam violão. Que escrevem poesias. Que fazem arranjos. E cantam. E riem. E tomam sua cerveja na boa. E nem se acham muito importantes. E que nos levam para muito longe da pobreza dos nossos dias e que nos fazem, por alguns momentos, entender que a vida faz sentido. E que com suas vozes, acordes e palavras, fazem com que a gente se sinta quase imortal.

 

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